O Brasil menos pobre e mais desigual
Análise · Ricardo Mendes O Brasil avançou em 71% dos seus indicadores sociais em 2025.
Análise · Ricardo Mendes
O Brasil avançou em 71% dos seus indicadores sociais em 2025. A renda média subiu, o mercado de trabalho se expandiu e a pobreza recuou. A segurança alimentar melhorou, assim como o acesso a serviços básicos. São vitórias concretas, traduzidas em menor desnutrição infantil e queda no analfabetismo. O país celebra um ciclo de progresso em dezenas de frentes. E, ainda assim, fracassa na questão central.
O Relatório do Observatório Brasileiro das Desigualdades 2026, em sua quarta edição, expõe uma dissociação que define a economia política nacional: o crescimento não distribui seus frutos de maneira equitativa. A melhoria nos agregados, nos números que compõem a média, esconde a deterioração nas pontas. O estudo é taxativo ao afirmar que o avanço econômico, embora real, “não foi suficiente para reduzir as disparidades históricas de renda, gênero, raça e território”.
A frase merece ser lida com a gravidade que carrega. Ela significa que os motores do crescimento, tal como operam hoje, não apenas convivem com a desigualdade; eles a perpetuam. O relatório aponta que oito indicadores pioraram e seis permaneceram estáveis. São nesses nichos de estagnação e retrocesso que a estrutura da iniquidade se revela. Os mecanismos que concentram riqueza e oportunidade seguem intactos, ativos.
Essa dinâmica não é um paradoxo, mas uma escolha de modelo. Um país pode crescer e reduzir a pobreza absoluta sem alterar as distâncias relativas entre seus cidadãos. Basta que o bolo aumente, mesmo que a divisão das fatias siga a mesma lógica de antes — ou uma ainda mais concentradora. O que os dados de 2025 sugerem é exatamente isso: uma maré que sobe, mas que eleva os iates muito mais do que os pequenos barcos.
A estabilidade macroeconômica, pilar de qualquer projeto de desenvolvimento sustentado, é condição necessária, mas não suficiente. O Plano Real, em sua concepção, foi uma obra civilizatória por devolver ao cidadão comum o poder de planejar o futuro, protegendo o valor de seu trabalho. Trinta anos depois, a tarefa é outra: garantir que o valor gerado por esse trabalho seja distribuído com mais justiça.
O Brasil de 2025 está diante do espelho que os números oferecem. Um país que soube criar mais riqueza, mas que ainda não aprendeu a partilhá-la. Até quando a foto do todo será mais bonita que a realidade das partes?
Ricardo Mendes
Economia — chefia da Xaplin
Ricardo Mendes — Economia — chefia. Xaplin.
Leia o factual: Brasil reduz pobreza, mas tem desigualdades ampliadas em 2025
Fonte: Agência Brasil