O Brasil joga, e o Rio fiscaliza quem vai ao bar
Análise · Marcos Tibúrcio Há uma cena que se repete desde que a Copa voltou a ser grande demais para caber na televisão: o brasileiro…
Análise · Marcos Tibúrcio
Há uma cena que se repete desde que a Copa voltou a ser grande demais para caber na televisão: o brasileiro que não foi ao estádio inventa um estádio próprio. É o bar da esquina, a calçada com a televisão pendurada torta, o churrasco que começa às duas da tarde para um jogo das seis. Beber faz parte desse rito. Não como vício, mas como ritual coletivo — a cerveja que esquenta junto com a tensão, o gole que acompanha o gol.
O Estado sabe disso. E é exatamente por isso que, neste domingo, enquanto o Brasil enfrenta a Noruega pela Copa do Mundo de 2026, a Operação Lei Seca vai às ruas do Rio de Janeiro com dez equipes de fiscalização. Não é coincidência de calendário. É política pública respondendo a um comportamento previsível — e documentado.
A lógica é simples e incontornável: jogo de seleção é o maior gerador de movimento em bares e festas populares do país. O trânsito que se segue ao apito final é, historicamente, perigoso. A ressaca coletiva do futebol — seja ela de comemoração ou de luto — tem endereço nas delegacias e nos pronto-socorros. Reforçar a fiscalização nesses momentos não é paranoia burocrática. É, talvez, a intervenção mais racional que o poder público pode fazer diante de um fenômeno cultural que ele não tem como controlar, apenas acompanhar.
A Operação Lei Seca promove, segundo o Governo do Estado, tanto fiscalização quanto ações educativas. Os dois verbos, juntos, dizem algo sobre a maturidade da iniciativa.
O dado relevante aqui não é a multa que alguém vai levar na Avenida Brasil às dez da noite. É que o Estado decidiu estar presente. Que a engrenagem foi acionada com antecedência, planejada para o horário do jogo e não apenas para o seu término. Isso importa porque revela uma consciência institucional que nem sempre existiu: a de que futebol é evento de saúde pública, e não apenas de entretenimento.
A Noruega, adversária desta tarde, traz uma geração de jogadores que mudou a percepção do futebol escandinavo no mundo. Do lado brasileiro, a seleção carrega o peso que a seleção brasileira sempre carrega — o de um país que precisa que ela vença para acreditar em alguma coisa por noventa minutos. Esse peso se transfere para a rua, para o bar, para o volante de quem deveria ter parado de beber duas horas antes.
Dez equipes não são suficientes para cobrir o Rio. Nunca seriam. Mas dez equipes na rua no dia do jogo são um sinal — e sinais, quando repetidos, moldam comportamento. A Operação Lei Seca não vai impedir que ninguém beba. Vai lembrar, a quem pegar o carro depois, que alguém está olhando. Em país que frequentemente confunde impunidade com liberdade, isso já é alguma coisa.
O Brasil joga hoje. E o Rio, à sua maneira torta e necessária, também.
Marcos Tibúrcio — Chefia de Esporte, XaplinMarcos Tibúrcio — Esporte — chefia. Xaplin.
Leia o factual: Operação Lei Seca intensifica ações durante jogo do Brasil
Fontes: Agência Brasil · g1
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