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Brasil envelhece enquanto sistema de saúde segue despreparado

O país vive paradoxo: população vive mais, mas infraestrutura de saúde não acompanha envelhecimento demográfico acelerado.

Brasil envelhece enquanto sistema de saúde segue despreparado

Análise · Dra. Camila Torres

Há algo de paradoxal na situação que o Brasil enfrenta hoje: nunca vivemos tanto, e esse feito extraordinário se tornou, ao mesmo tempo, um problema de gestão pública que ninguém sabe muito bem como resolver. Envelhecer deixou de ser exceção. O sistema de saúde, porém, foi concebido numa época em que era.

Durante décadas, a estrutura sanitária brasileira se organizou em torno de outro perfil epidemiológico — doenças infecciosas, mortalidade infantil, partos de risco. O SUS nasceu nesse contexto, nos anos 1980, e carrega na arquitetura institucional a marca desse tempo. O que mudou foi a pirâmide. O que não mudou, em velocidade compatível, foi a resposta.

O envelhecimento populacional não é apenas um dado demográfico. É uma reorganização profunda da demanda por cuidado. O paciente idoso raramente chega à unidade de saúde com uma queixa isolada. Chega com hipertensão, diabetes tipo 2, comprometimento cognitivo leve, polifarmácia e, frequentemente, sem uma rede de suporte familiar adequada. Tratar esse paciente exige tempo, coordenação entre especialidades e, sobretudo, continuidade — exatamente o que sistemas sobrecarregados têm mais dificuldade de oferecer.

A atenção primária deveria ser o eixo dessa reorganização. É o nível mais capaz de acompanhar longitudinalmente, de conhecer o contexto social do paciente, de interceptar o agravamento antes que ele exija internação. Mas transformar a retórica da atenção primária em prática cotidiana para populações idosas exige formação específica, que a graduação médica brasileira ainda oferece de forma fragmentada. Geriatria permanece especialidade subvalorizada, com poucos residentes e distribuição geográfica profundamente desigual.

O risco real não é o envelhecimento em si. É chegar a ele sem ter construído a infraestrutura de cuidado que ele exige.

Há também uma dimensão que raramente aparece nos debates técnicos: a invisibilidade do cuidador. Boa parte do que mantém o idoso fora do hospital não é sistema de saúde — é uma filha, uma nora, uma vizinha que organiza medicamentos, acompanha consultas e absorve a sobrecarga sem nenhum suporte institucional. Essa rede informal é real, é eficaz e é frágil. Quando ela rompe, o pronto-socorro recebe.

Países que enfrentaram antes essa transição — Japão, Alemanha, Itália — não encontraram soluções uniformes, mas compartilharam um movimento comum: antecipação. Investiram em cuidados domiciliares, em formação de cuidadores leigos com supervisão técnica, em modelos de coabitação assistida. Nenhuma dessas alternativas é barata no curto prazo. Todas são menos custosas do que hospitalizações repetidas e evitáveis.

O Brasil tem a janela — ainda. A transição demográfica está em curso, não concluída. Existe tempo para reorientar prioridades, reformular currículos, redesenhar fluxos. O que não existe é a possibilidade de adiar indefinidamente essa conversa sem pagar o preço depois, em leitos ocupados, em famílias exauridas, em anos de vida vividos com pouca dignidade. Envelhecer bem não é destino — é política pública.

Dra. Camila Torres é chefe de Saúde da Xaplin, médica pela USP e epidemiologista pela Harvard T.H. Chan School of Public Health.

Dra. Camila Torres — Saúde — chefia. Xaplin.

Leia o factual: Sistema de saúde enfrenta desafio de população idosa crescente

Fontes: Folha de S.Paulo · UOL

Este conteúdo não substitui orientação médica individual. Em caso de dúvida, procure um serviço de saúde.