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O Brasil de dois corpos e uma só alma

Análise · Marcos Tibúrcio Há dias em que um país parece caber em dois lugares ao mesmo tempo.

O Brasil de dois corpos e uma só alma
Capa tipográfica · Xaplin

Análise · Marcos Tibúrcio

Há dias em que um país parece caber em dois lugares ao mesmo tempo. Nesta quarta-feira, a camisa da seleção brasileira de vôlei foi vestida em Macau e em Lima. Enquanto o sol se punha na China, sobre uma vitória contra o Japão, ele nascia no Peru para ver outra equipe, com o mesmo escudo ao peito, entrar em quadra.

Chamaram-na de seleção “B”. Uma nomenclatura fria, de cartório, para um time que tem nome e sobrenome: Sabrina Machado, a oposta que pôs dez bolas no chão boliviano; a levantadora Bruninha; a central Lanna. São elas as protagonistas de um capítulo silencioso, mas fundamental, da história que se escreve para as Olimpíadas de 2028.

A comissão técnica, liderada à distância por José Roberto Guimarães, chama o expediente de “estratégia” e “renovação”. Palavras de prancheta, necessárias, mas que não dão conta do drama. O que se viu, na prática, foi a multiplicação de um dever. Seis horas separaram o ponto final em Macau do primeiro saque em Lima. Um oceano e meio dia de fuso horário. A vitória sobre a Bolívia por 3 a 0 foi mais do que um resultado protocolar na abertura da Copa Sul-Americana; foi um atestado de presença.

Uma camisa pesada em qualquer continente

Enquanto as titulares duelavam na Liga das Nações, a principal vitrine da modalidade, as jogadoras no Peru cumpriam uma missão menos glamorosa, porém igualmente decisiva: garantir que o caminho para o futuro permaneça aberto. A competição em Lima vale vagas no Pré-Olímpico Sul-Americano, um torneio que, para o Brasil, já tem cadeira cativa no Maracanãzinho. A participação da equipe de Wagão, portanto, não é sobre classificar-se, mas sobre existir. Sobre mostrar que a camisa não tem time titular ou reserva; tem quem a vista.

A arquibancada, seja ela virtual ou física, não torce para um CPF. Torce para um símbolo. Na vitória por 25 a 11 no último set, não havia o peso de uma final olímpica, mas a responsabilidade de quem sabe que, do outro lado do mundo, outra parte de si acabara de cumprir o mesmo ofício. O Brasil, nesta quarta-feira, não jogou duas vezes. Jogou uma só, em dois atos, com um elenco que se recusa a ser coadjuvante.

Marcos Tibúrcio — Esporte — chefia. Xaplin.

Leia o factual: Seleção brasileira B de vôlei vence Bolívia na Copa Sul-Americana

Fonte: ge