Brasil não vence e cria expectativa recorde antes da Copa
Análise de Marcos Tibúrcio sobre a lógica perversa do futebol de Copa: quanto maior a expectativa, maior o risco.
Análise · Marcos Tibúrcio
Há uma lógica perversa no futebol de Copa do Mundo que os manuais táticos não ensinam: quanto maior a expectativa, mais pesada fica a bola. O Brasil de Carlo Ancelotti chega à Filadélfia nesta sexta-feira sem uma vitória sequer no torneio. Enfrenta o Haiti. E o peso disso — dessa combinação de nome adversário com ausência de resultado — diz mais sobre o momento da seleção do que qualquer estatística poderia dizer.
Não se trata de subestimar o Haiti. O futebol já nos ensinou, a duras penas, que não existe adversário pequeno em fase de grupos de Copa. Mas existe contexto. E o contexto aqui é que o Brasil, uma das seleções com maior elenco individual do torneio, chega a este jogo ainda em busca da primeira vitória. Isso não é detalhe de tabela. É diagnóstico.
Ancelotti é um nome que carrega consigo uma aura de serenidade quase irritante. O homem ganhou Champions Leagues com a elegância de quem assina um cheque. No clube, essa serenidade é virtude — os jogadores respiram, o sistema funciona, o tempo trabalha a favor. Na seleção, em Copa do Mundo, o tempo tem outra natureza. Cada jogo sem vitória não é apenas um ponto a menos na tabela; é uma pergunta que cresce nas arquibancadas e nos silêncios dos vestiários.
A seleção que ainda não venceu não é necessariamente uma seleção em crise. Mas é, sem dúvida, uma seleção sob escrutínio.
A Filadélfia não é o Maracanã. Não há aquela pressão física da arquibancada verde e amarela sufocando o campo. Mas a Copa do Mundo carrega seu próprio peso ambiente, independente de latitude. Os brasileiros espalhados pelos Estados Unidos para este torneio não viajaram para ver empate. Viajaram para ver gol, para ver alegria, para ver aquela coisa que o futebol brasileiro, nos seus melhores momentos, faz parecer fácil — e que nos últimos anos teima em parecer difícil.
O Haiti representa, neste momento, mais do que um adversário no papel. Representa a oportunidade de o Brasil responder a uma pergunta simples e urgente: este time sabe jogar junto? Porque individual, todos sabemos que há qualidade. O que uma Copa exige, porém, é outra coisa — é coletivo, é confiança, é aquela trama invisível que se tece entre jogadores que acreditam uns nos outros dentro de campo.
Às 21h30, na Filadélfia, o Brasil entra em campo ainda sem vitória. O Haiti entra com tudo a ganhar e nada a perder — e quem já viu futebol suficiente sabe que esse é o adversário mais perigoso que existe. Não pelo talento. Pela liberdade. Ancelotti vai precisar que seus jogadores encontrem, antes do apito inicial, uma resposta para uma pergunta que nenhum esquema tático resolve: o que este time quer ser nesta Copa?
O jogo dirá. Sempre diz.
Marcos Tibúrcio — Esporte — chefia. Xaplin.
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Fonte: ge