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O bebê que nunca viu uma seringa

Análise · Dra. Camila Torres Há um número que incomoda mais do que parece à primeira leitura: 13,5 milhões.

O bebê que nunca viu uma seringa
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Análise · Dra. Camila Torres

Há um número que incomoda mais do que parece à primeira leitura: 13,5 milhões. Não são crianças que abandonaram o calendário vacinal no meio do caminho, que perderam uma dose por fila longa ou por unidade de saúde fechada numa segunda-feira de feriado. São bebês que chegaram ao fim do primeiro ano de vida sem ter recebido absolutamente nenhuma vacina. Zero doses. A expressão técnica — crianças zero-dose — tem a frieza de um eufemismo, mas esconde algo preciso: um sistema de saúde que simplesmente não chegou até aquela criança.

O relatório Estimativas OMS-Unicef de Cobertura Vacinal Nacional, divulgado nesta quarta-feira, compila dados enviados por 195 governos e oferece o retrato mais abrangente disponível sobre imunização infantil no planeta. O quadro geral tem avanços reais — 116 milhões de bebês receberam ao menos uma dose da vacina contra difteria, tétano e coqueluche (DTP) em 2025, 750 mil a mais do que no ano anterior. Esse número merece registro. Mas o Unicef escolheu alertar, e faz bem em fazê-lo.

A razão é estrutural. Cem países mantêm cobertura de pelo menos 90% com três doses da DTP desde 2019 — e praticamente não avançaram nesse grupo. Entre os que estavam abaixo desse patamar, 65 permaneceram estagnados ou retrocederam. Trinta conseguiram melhorar. A aritmética é reveladora: o mundo está longe de uma convergência. Está, na verdade, se bifurcando. De um lado, países com sistemas de saúde consolidados que vacinam bem e continuam vacinando bem. Do outro, um bloco persistente de nações — muitas delas frágeis, afetadas por conflitos ou deslocamentos forçados — onde a cobertura oscila, regride e não se estabiliza.

O sarampo traduz esse risco em linguagem epidemiológica direta. A imunidade de rebanho contra a doença exige cobertura de pelo menos 95% com duas doses da vacina (MCV1 e MCV2). Em 2025, o mundo registrou mais de 411 mil casos em surtos distribuídos por 57 países. A cobertura global da primeira dose está em 84%; da segunda, em 77%. Esse intervalo — entre a dose que o sistema oferece e a dose que a criança efetivamente recebe — é onde o sarampo encontra combustível. A doença não precisa de muita brecha.

"Milhões de crianças vulneráveis continuam desprotegidas devido a conflitos, deslocamentos forçados e pobreza", afirmou Catherine Russell, diretora executiva do Unicef, no comunicado que acompanha o relatório.

A frase de Russell não é retórica. É diagnóstico. Conflito destrói cadeia de frio, dispersa agentes comunitários de saúde, desloca populações para fora do alcance de qualquer cadastro. Pobreza mantém a família longe de serviços que não chegam até ela. Deslocamento forçado rompe o vínculo entre a criança e qualquer sistema que a rastreie. Esses três fatores não são variáveis independentes — se sobrepõem com frequência brutal, e o relatório indica que mais da metade das crianças zero-dose vive exatamente nesses contextos.

O que o relatório evidencia, no fundo, é que vacinação nunca foi apenas uma questão técnica de seringas e estoques. É uma questão de acesso — e acesso é política, infraestrutura, paz. O progresso pós-pandemia foi real, mas frágil. Recuperar cobertura é mais simples do que sustentá-la onde o Estado não consegue chegar, ou onde parou de tentar chegar.

Dra. Camila Torres é chefe de Saúde da Xaplin, médica pela USP e epidemiologista pela Harvard T.H. Chan School of Public Health.

Dra. Camila Torres — Saúde — chefia. Xaplin.

Leia o factual: Unicef: 13,5 milhões de crianças não recebem vacina no primeiro ano

Fonte: Agência Brasil

Este conteúdo não substitui orientação médica individual. Em caso de dúvida, procure um serviço de saúde.