O batismo de terra de Abelardo de la Espriella
Análise · Clara Verdi Um presidente recém-empossado, ainda com o cheiro da tinta da assinatura nos decretos de posse, não espera que a terra se abra…
Análise · Clara Verdi
Um presidente recém-empossado, ainda com o cheiro da tinta da assinatura nos decretos de posse, não espera que a terra se abra sob seus pés. Mas a terra não lê diários oficiais. Na segunda-feira, às 7h34 da manhã, a Colômbia tremeu com uma fúria de 7,4 de magnitude, e o governo de Abelardo de la Espriella, no cargo desde a sexta-feira anterior, foi batizado não com água, mas com pó e escombros.
A política, em dias assim, se torna geologia. Deixa de ser o gabinete e vira o trabalho dos socorristas sob holofotes, o movimento lento das mãos que escavam em busca de um calor, de um som, de uma vida. O número oficial — 181 mortos — é uma fotografia pálida do que a madrugada esconde. Uma abstração fria diante da contagem dos feridos, que passa de 2.500, e dos quase duzentos desaparecidos que talvez nunca deixem de o ser. O poder do presidente, tornado especial pela declaração de estado de calamidade, é antes de tudo o poder de coordenar a esperança contra o tempo.
A liturgia da catástrofe
A resposta internacional segue seu roteiro conhecido, quase litúrgico. Os Estados Unidos anunciam 15,5 milhões de dólares; o Banco Interamericano de Desenvolvimento, setecentos mil. O dinheiro chegará, mas antes dele chega a declaração, o gesto, a nota de imprensa. É o teatro da solidariedade global, tão previsível quanto os tremores secundários que se seguiram ao abalo principal. Enquanto isso, em Chocó e na Região Cafeeira, a emergência é tátil, física. É a ausência de um teto, a busca por um corpo.
A Colômbia sabe que a profundidade de um tremor decide a extensão da cova. Os 103 quilômetros abaixo da superfície que originaram este sismo são uma bênção trágica quando comparados aos 10 quilômetros do terremoto que devastou a Venezuela. Uma sorte perversa. Mas a profundidade não mitiga a dor de quem perdeu tudo na superfície. Para o governo que mal começou, o desafio não é apenas gerir a crise, mas construir um Estado sobre fundações que se provaram instáveis.
O poder real de De la Espriella será medido nos próximos meses, não na capacidade de atrair doações, mas na de reconstruir vidas. A terra já deu seu veredito. Agora, a história espera o dele.
Clara Verdi — Europa. Xaplin.
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Fontes: BBC News Brasil · UOL