O batismo da Colômbia
Análise · Clara Verdi O primeiro dia de governo de Abelardo de la Espriella começou com a terra tremendo.
Análise · Clara Verdi
O primeiro dia de governo de Abelardo de la Espriella começou com a terra tremendo. A política, que vive do simbólico, por vezes é brutalmente material: antes que o novo presidente pudesse dar seu primeiro passo em Bogotá, a Colômbia se partiu a 230 quilômetros da capital, em San José del Palmar, com uma violência de 7,4 na escala de magnitude.
O número é uma abstração geológica até que ganhe corpo. Dezoito corpos em Pereira, a cidade para onde Espriella anunciou viagem. Dois em Manizales, onde a cúpula da Catedral Basílica Metropolitana, antes um marco da paisagem, agora é uma ferida aberta contra o céu. Em Valle del Cauca, mais quatro mortos; três deles, crianças. São os primeiros mortos de um novo governo. A contagem, sabe-se, é sempre provisória nessas horas.
Não há metáfora para um terremoto. Há apenas o fato bruto: o colapso dos edifícios em Cáli, o dano nos aeroportos de seis cidades, as sirenes que soaram em Bogotá. Há as réplicas, de 2,8 e 4,8, que servem como lembrete de que o chão sob os pés nunca é uma garantia. Foi o tremor mais forte da última década, diz o Serviço Geológico, um marco temporal que mede a normalidade que acaba de ser rompida. A governadora de Chocó, o estado mais atingido, falou em “destruição significante”. Uma expressão técnica, quase burocrática, para o intraduzível.
A primeira prova de um governante não é o discurso de posse, mas a gestão do imponderável. A viagem de Espriella a Pereira é um gesto necessário, o ritual de presença que se exige do poder diante da tragédia. Mas a verdadeira tarefa não estará nos escombros de uma cidade, e sim na reconstrução de um país que, antes mesmo de ouvir as promessas de seu novo líder, foi lembrado de sua própria fragilidade geológica.
Como se governa um país quando a primeira ordem do dia não vem do palácio presidencial, mas das profundezas da terra?
Clara Verdi — Europa. Xaplin.
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