O banqueiro que vigiava o concorrente e a jornalista
Análise · Luciano Aragão A mensagem é curta e revela muito.
Análise · Luciano Aragão
A mensagem é curta e revela muito. "Estou precisando fazer um levantamento do Milton Maluhy", escreveu Daniel Vorcaro ao publicitário Thiago Miranda. "Esta me causando muito problema." O destinatário respondeu: "Deixa comigo." No vocabulário da Operação Compliance Zero, o que veio a seguir tem nome técnico: dossiê. No vocabulário do mercado financeiro, tem outro: concorrência desleal com dados obtidos por meios ilícitos.
O episódio, revelado em decisão do ministro André Mendonça no STF, merece ser lido além do escândalo imediato. Não se trata apenas de um banqueiro em apuros encomendando um levantamento sobre um rival. Trata-se de uma arquitetura. A investigação que culminou na 10ª fase da operação já havia mapeado o mesmo Thiago Miranda como articulador de um esquema para recrutar influenciadores e jornalistas — com contratos de confidencialidade e valores de até R$ 2 milhões — com o objetivo de comprometer a credibilidade do Banco Central. O dossiê contra Milton Maluhy Filho, CEO do Itaú Unibanco desde 2021, não é um episódio lateral. É um item a mais no cardápio de serviços.
O documento encontrado pelos investigadores tem título clínico: "Família Maluhy Relatório sobre Execução Fiscal — Caso Milton Maluhy Filho e Camila Moretti Maluhy". Inclui dados de identificação civil, CPF e informações de caráter pessoal da esposa, Camila Moretti Maluhy. Traz a marca visual da Agência Mithi, empresa vinculada a Miranda. O ministro Mendonça classifica Maluhy como "potencial vítima da devassa encomendada por Daniel Vorcaro". A palavra devassa, num documento judicial, não é metáfora.
O que conecta o ataque ao Banco Central, o monitoramento do CEO do Itaú e a busca por dados da jornalista Malu Gaspar, colunista de O Globo, não é o acaso. É a lógica de quem identificou, em cada um desses alvos, um obstáculo — regulatório, competitivo, jornalístico — e terceirizou a neutralização. A estrutura investigada pela PF sugere que havia, ali, algo mais próximo de um serviço sob demanda do que de iniciativas isoladas.
"Passando o carnaval falamos. Estou com tudo pronto do Milton. Mas quero fazer da mesma forma. Soltar por outro veículo", diz Miranda em mensagem a Vorcaro.
A expressão "da mesma forma" é a mais eloquente do conjunto. Ela implica método, precedente e, portanto, reincidência. Implica que já havia sido feito antes, com outro alvo, por outro canal. O que a investigação ainda não revelou publicamente é quantas vezes o método foi aplicado com sucesso — e contra quem.
O caso tem uma dimensão que vai além de Vorcaro e de sua guerra de sobrevivência depois da crise do Banco Master. Ele expõe a facilidade com que dados pessoais de pessoas públicas — e suas famílias — podem ser compilados, formatados com identidade corporativa e transformados em instrumento de pressão. O mercado de informação ilícita tem demanda, tem oferta e, aparentemente, tem tabela de preços. A PF prendeu um elo da cadeia. Quantos outros prestam o mesmo serviço para outros clientes, sem que nenhum ministro do STF tenha ainda assinado um mandado, é uma pergunta que a operação, por enquanto, não responde.
Luciano Aragão
Luciano Aragão — Brasília. Xaplin.
Leia o factual: Vorcaro encomendou dossiê contra CEO do Itaú, aponta PF
Fontes: g1 · Folha de S.Paulo · CNN Brasil