Rafaela no asfalto e a solidão de Gabi Mazetto
Marcos Tibúrcio reflete sobre as complexidades do esporte feminino, o silêncio do asfalto e a solidão das atletas.
Análise · Marcos Tibúrcio
Há um tipo de silêncio que só o asfalto conhece. Aquele segundo antes do skate tocar o corrimão, a pausa no ar antes da gravidade reclamar o corpo de volta. Em Rafaela, na Argentina, uma pista batizada de “Skate Park Scenario” aguarda para ouvir esse silêncio. É para lá que vai Gabi Mazetto, de Praia Grande, convocada mais uma vez para vestir as cores do Brasil. Convocada, diz o comunicado, por ser a 17ª do mundo. Mas os rankings, como as estatísticas, são a autópsia do esporte. Não explicam o drama.
E há drama. Aos olhos de um burocrata, a convocação é lógica, quase inevitável. Gabi já tem no currículo dois ouros sul-americanos, conquistados no Paraguai e na Colômbia. Chegou às semifinais das duas etapas da Copa do Mundo deste ano. É capitã de time nos X-Games. A planilha diria que o ouro é uma formalidade, um destino manifesto a ser cumprido entre os dias 16 e 19 de setembro. A arquibancada — ou o que faz as vezes dela, o concreto que cerca a pista — sabe que o favoritismo é uma forma de maldição.
O skate de rua não é uma corrida de cem metros, onde o mais rápido vence e ponto final. É um balé de 45 segundos, seguido de três atos de coragem, as três manobras que valem. Um tornozelo que vira, um cálculo de rotação que falha por um milímetro, e a volta perfeita se desmancha em nada. O favoritismo não apara quedas. Ele as torna mais ruidosas.
Gabi viaja ao lado de Duda Ribeiro, Wallace Gabriel e Matheus Mendes. Uma equipe. Mas quando o cronômetro dispara, ela está sozinha com a prancha, o concreto e a própria história. Talvez a leitura de que o peso recai apenas sobre ela seja um exagero de quem vê de longe; talvez a dinâmica do time alivie a carga. Ainda assim, é o nome dela que carrega o peso dos ouros passados, a expectativa que a antecede. Ela não compete apenas contra as adversárias. Compete contra a Gabi Mazetto de 2022, a de 2023, a capitã, a semifinalista mundial.
O esporte de alto nível é esta repetição cruel: provar-se digno do próprio nome, de novo e de novo. Para a menina de Praia Grande, a pista de Rafaela não é um palco. É um tribunal de cimento. Quantos campeões o mundo já viu serem devorados pela própria sombra?
Marcos Tibúrcio — Esporte — chefia. Xaplin.
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Fonte: ge