O Acre em Varsóvia, ou como o futebol não é tudo
Análise · Marcos Tibúrcio Há uma certa poesia no trajeto de Rener Carvalho.
Análise · Marcos Tibúrcio
Há uma certa poesia no trajeto de Rener Carvalho. Durante mais de duas décadas, ele viveu o futebol de um lugar que a câmera raramente enquadra: ao lado do árbitro principal, braço erguido para sinalizar impedimento, absorvendo vaias sem direito a resposta. Ex-árbitro assistente da CBF, aposentado em 2024, ele chegou a Varsóvia não como juiz, mas como parte da comissão técnica da seleção brasileira de futsal universitário. E saiu campeão mundial.
O torneio terminou na última terça-feira, 7 de julho, na capital polonesa. O Brasil bateu Portugal na decisão dos dois naipes: 8 a 5 no masculino, 3 a 0 no feminino. Duplo título, mesma final, mesmo adversário. Há uma contundência nesse número que dispensa adjetivo.
Mas o que importa aqui não é apenas o placar. É o que esse título revela sobre os circuitos do esporte brasileiro que existem à margem do holofote — e que funcionam.
Rener Carvalho foi à Polônia a convite da Confederação Brasileira de Desporto Universitário. Ele preside a Federação do Desporto Universitário Acreano. Em 2023, já havia sido campeão mundial de futebol universitário, na China. Um homem do Acre, formado nas linhas laterais do futebol profissional, construindo carreira numa estrutura que a maioria dos torcedores de Copa do Mundo sequer sabe que existe.
"Mais uma grande oportunidade em vivenciar um Campeonato Mundial. Isso traz muito conhecimento para um gestor", disse Carvalho ao ge, na quarta-feira.
A frase é sóbria, quase burocrática. Mas carrega uma consciência que merece atenção: ele se nomeia gestor, não herói. Quem passou décadas numa função invisível aprendeu que o resultado coletivo não cabe numa única assinatura.
O futsal universitário não disputa espaço com a Série A nem com esta Copa do Mundo que agora consome os Estados Unidos, o México e o Canadá. Ele existe em outro registro de tempo e de atenção. Mas o Mundial que terminou em Varsóvia, entre 1º e 7 de julho, reuniu seleções, comissões técnicas, gestores — e produziu campeões. Com dois títulos simultâneos, o Brasil não ganhou por acidente.
O detalhe acreano merece ser sublinhado sem romantismo fácil. O Acre não é polo de futebol, não tem clube na primeira divisão nacional, não exporta nomes para a Europa. Mas tem uma federação universitária ativa o suficiente para colocar um representante na comissão técnica de uma seleção campeã mundial. Isso é infraestrutura funcionando onde ninguém estava olhando.
No momento em que o Brasil se prepara para entrar em campo na Copa do Mundo de seleções adultas — com toda a expectativa, toda a pressão, todo o peso histórico de 1994 para cá —, vale registrar que outra seleção brasileira acabou de voltar da Polônia com dois títulos. Sem transmissão ao vivo, sem patrocinador no peito da camisa, sem coletiva em horário nobre.
O futebol ocupa muito espaço. Às vezes o esporte precisa do resto.
Marcos Tibúrcio — Esporte — chefia. Xaplin.
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Fonte: ge