O abismo entre saber e agir no câncer colorretal
Análise · Dra. Camila Torres Existe uma distância perigosa entre o que sabemos e o que fazemos com o nosso corpo.
Análise · Dra. Camila Torres
Existe uma distância perigosa entre o que sabemos e o que fazemos com o nosso corpo. Um levantamento recente, divulgado pelo Hospital A. C. Camargo e pela Nexus, desenha os contornos desse abismo no Brasil quando o assunto é o câncer colorretal. O dado central é um paradoxo: oito em cada dez brasileiros reconhecem a gravidade de sintomas como sangue nas fezes ou alterações intestinais persistentes. No entanto, quase metade dos que percebem esses sinais não procura assistência médica com a rapidez necessária. Em um consultório do SUS, aprendemos a ler esses números não como estatística, mas como histórias de medo, negação ou simplesmente da dificuldade de acesso que adiam um diagnóstico capaz de salvar uma vida.
A pesquisa, que ouviu mais de duas mil pessoas, revela que 9% dos entrevistados já notaram sangue nas fezes. Desses, 40% adiaram a busca por um médico. Não se trata, portanto, de pura desinformação sobre a gravidade. A consciência existe. O que paralisa a ação? A resposta é complexa e multifatorial, mas o próprio estudo oferece pistas. Uma delas é a falta de familiaridade com a doença: 75% dos entrevistados afirmaram nunca ter tido contato com um paciente de câncer colorretal. A doença, para três quartos da população, é uma abstração. Algo que acontece aos outros, em algum lugar distante. Essa distância psicológica pode ser um dos maiores obstáculos à prevenção.
O segundo obstáculo é o desconhecimento sobre as ferramentas de detecção precoce. Dois em cada três entrevistados nunca ouviram falar no exame de “Pesquisa de Sangue Oculto nas Fezes” (PSO), um método simples e não invasivo para rastreamento. Apenas 11% já o realizaram. Esse desconhecimento é ainda mais acentuado entre os mais jovens, homens e pessoas com menor renda e escolaridade — justamente os grupos que, historicamente, mais demoram a acessar os serviços de saúde.
Como recorda Samuel Aguiar, líder do Centro de Referência de Tumores Colorretais do A. C. Camargo, o diagnóstico precoce está diretamente ligado a taxas de cura mais elevadas. A colonoscopia e o exame de sangue oculto nas fezes são as ferramentas que transformam um câncer potencialmente fatal em uma doença tratável. A pesquisa nos mostra que a informação sobre o sintoma circula, mas a informação sobre a solução, não. Temos um país que sabe reconhecer o alarme de incêndio, mas não sabe onde fica a escada de emergência. Superar essa lacuna não é apenas um desafio de comunicação em saúde. É uma questão de sobrevivência.
Dra. Camila Torres — Saúde — chefia. Xaplin.
Leia o factual: Brasileiros adiam busca por médico com sintomas de câncer colorretal
Fonte: Agência Brasil
Este conteúdo não substitui orientação médica individual. Em caso de dúvida, procure um serviço de saúde.