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Noite no Lapin — fragmentos

Bica. — Crônica O Lapin é o tipo de lugar que não aparece no Google Maps.

Bica. — Crônica

O Lapin é o tipo de lugar que não aparece no Google Maps. Não porque não exista — existe, no segundo andar de um prédio sem elevador na Lapa — mas porque quem frequenta não quer que apareça. O Lapin é segredo. E segredos, quando compartilhados, perdem a graça.

Entro às onze. O bar tem meia dúzia de mesas, um balcão de madeira que já foi bonito e uma luz amarela que perdoa tudo: rugas, olheiras, escolhas ruins. No canto, um trio toca algo entre bossa nova e jazz — sem amplificação, sem microfone, só instrumento e ar.

Fragmento 1 — A mulher do vestido verde

Ela sentou sozinha. Pediu absinto. Quem pede absinto num bar da Lapa em plena terça-feira tem uma história ou está construindo uma. Não perguntei. Há uma etiqueta nos bares que servem absinto: não se pergunta, se observa.

Ficou duas horas. Não olhou o celular nenhuma vez. Quando saiu, deixou gorjeta de 50 reais e um guardanapo com algo escrito. O barman leu, sorriu e guardou no bolso. Não mostrou para ninguém.

O Lapin é o tipo de lugar onde as melhores histórias acontecem nos guardanapos que ninguém lê.

Fragmento 2 — O pianista que não tocava piano

O pianista do trio se chama Elias. Tem mãos enormes, calosas, de quem trabalhou com elas antes de trabalhar nelas. Mecânico, ele diz. Vinte anos de oficina. Aprendeu piano aos 40, quando a oficina faliu e ele precisava de alguma coisa que não fizesse barulho de motor.

"Piano é motor também", ele me disse. "Só que em vez de gasolina, funciona com silêncio. O silêncio entre as notas é o que faz a música andar."

Fragmento 3 — O fechamento

O Lapin fecha às 2h. Não por lei — por filosofia. "Depois das 2h, as pessoas ficam honestas demais", explica Dona Célia, a dona. "E honestidade demais faz estrago."

Saio pela Lapa vazia. Um gato cruza a rua como se fosse dele — e é. A noite no Lapin não entrega respostas. Entrega perguntas melhores. E perguntas melhores, num mundo de respostas rápidas, são o luxo mais raro.

Bica. — Crônicas do Cabaré Literário