No tatame de Blumenau, uma dívida foi paga
Análise · Marcos Tibúrcio Há fantasmas que não se exorcizam com reza, mas com um golpe.
Análise · Marcos Tibúrcio
Há fantasmas que não se exorcizam com reza, mas com um golpe. No tatame montado em Blumenau, na noite de quinta, a seleção brasileira de judô acertou as contas não apenas com a Alemanha, mas com a memória recente de uma derrota que ainda doía nos ossos. O placar de 5 a 1 no Desafio Internacional foi menos um número e mais uma certidão: a de que certas feridas, no esporte, só fecham quando o mesmo adversário que as abriu está do outro lado do tablado, esperando o cumprimento.
A lembrança era de Budapeste, no Mundial do ano passado. Uma eliminação nas quartas de final, um quinto lugar com gosto de nada. Voltar a encarar os alemães, agora em casa, diante de um ginásio que conhece o peso de um quimono, transformou a competição, que voltava ao calendário após oito anos, numa questão de honra. Honra que começou a ser lavada pelas mãos de Shirlen Nascimento, a campeã mundial, que precisou do tempo extra, o chamado golden score, para arrancar um ippon de Seja Ballhaus. O ponto não inaugurou apenas o placar; inaugurou o drama.
A vingança particular de Rafaela Silva
Mas se a vitória coletiva tinha um roteiro, a de Rafaela Silva foi um capítulo à parte, um acerto de contas pessoal. A carioca, medalhista olímpica, subiu no tatame para encarar Mirian Butkereit, a mesma alemã que lhe impôs duas derrotas em Budapeste. Lutando numa categoria acima da sua, Rafaela não parecia menor. Parecia maior, agigantada pela oportunidade. Quando Butkereit tentou o golpe, a brasileira não apenas se defendeu: reverteu, pontuou e, na sequência, cravou o ippon da vitória. O terceiro ponto do Brasil no confronto.
Essa vitória também teve um gosto especial porque consegui corrigir os erros da derrota que sofri para essa adversária no ano passado, colocando em prática tudo o que venho treinando.
Na sua declaração, Rafaela falou em “corrigir os erros”. Quem estava na arquibancada ouviu outra coisa. Ouviu o som de uma dívida sendo paga. O judô, com seus códigos e sua disciplina oriental, tem essa beleza. A revanche não é aos gritos, mas no silêncio da concentração, na precisão do movimento que foi ensaiado mil vezes na solidão do treino. A vitória sobre a Alemanha não foi um passeio. Foi uma caça. Cada luta, um fantasma a menos. Daniel Cargnin, Rafael Macedo, Leonardo Gonçalves e Rafael Silva completaram a fatura, mas a alma do confronto esteve ali, no reencontro de Rafaela com seu passado.
O foco, agora, se volta para o Mundial em Baku. O judô brasileiro irá para o Azerbaijão com um título na bagagem e uma certeza no espírito: a de que as melhores respostas, aquelas que calam os críticos e os próprios demônios, não são dadas diante de um microfone, mas de um adversário vencido.
Marcos Tibúrcio — Esporte — chefia. Xaplin.
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Fonte: Agência Brasil