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No Congo, o ebola é a doença; a morte tem outras causas

Análise · Clara Verdi Uma pessoa a cada trinta minutos.

No Congo, o ebola é a doença; a morte tem outras causas
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Análise · Clara Verdi

Uma pessoa a cada trinta minutos. O número não é uma abstração estatística, um dado frio para um relatório da ONU, mas o ritmo da morte na República Democrática do Congo. Com 2.325 vidas perdidas em menos de três meses, este surto de ebola já é o mais letal na história do país, um marco sombrio que ultrapassa a longa epidemia de 2018-2020. O que assusta não é apenas a velocidade — sete vezes mais contágios que nos primeiros meses do desastre de 2014 na África Ocidental —, mas a razão pela qual o vírus vence.

A taxa de letalidade, que no início de junho era de 20%, agora se aproxima dos 50%. Quase um em cada dois infectados morre. A explicação mais fácil seria culpar a virulência da cepa Bundibugyo, para a qual não há vacina ou tratamento aprovado. Seria a explicação cômoda, a que atribui a catástrofe a um agente biológico incontrolável, absolvendo os agentes humanos. Mas a realidade é outra, e ela se desenrola não nos laboratórios, mas nas comunidades.

A doença avança onde o Estado recuou há muito. O especialista da Médicos Sem Fronteiras é claro: a letalidade deveria cair com o tempo, não o contrário. Que ela suba aponta para o colapso da vigilância, para a falha em detectar e tratar. Mais de 70% das mortes acontecem fora dos centros de tratamento, em casa ou a caminho do hospital. Morre-se na comunidade porque não se confia na cura institucional. Como Flavier Ngurima, que viu o irmão morrer antes de chegar ao centro de tratamento de Ituri, pois ambos temiam o lugar. “Diziam que muitas pessoas morrem lá”, contou.

É uma desconfiança com raízes profundas. Em Djugu, um dos epicentros, a população não fala em ebola, mas em *empoisonnement*, em outras doenças. Leva-se o doente ao hospital apenas quando a situação é terminal. O vírus se aproveita do medo, da infraestrutura precária, da ausência. Em Bunia, capital de Ituri, onde se concentra a esmagadora maioria dos casos, os mercados seguem apinhados, as medidas de proteção são quase inexistentes. A epidemia não é apenas um evento médico; é um sintoma agudo de uma falência crônica.

O número de mortos é a manchete, mas a história de fundo é a da erosão da confiança entre o cidadão e qualquer forma de autoridade — seja ela estatal ou sanitária. Cada morte fora de um hospital não é só uma vitória do vírus. É um atestado da distância que a ajuda internacional e o governo local ainda precisam percorrer para serem vistos não como uma ameaça, mas como uma chance.

Enquanto essa distância persistir, qual será o verdadeiro nome da doença?

Clara Verdi — Europa. Xaplin.

Leia o factual: Surto de ebola no Congo é o mais letal da história do país com 2.325

Fontes: Agência Brasil · Folha de S.Paulo

Este conteúdo não substitui orientação médica individual. Em caso de dúvida, procure um serviço de saúde.