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Medicina negligenciou a menopausa por décadas

A menopausa afeta metade da população mundial, mas permanece negligenciada pela medicina. Análise sobre como o silêncio moldou essa realidade.

Medicina negligenciou a menopausa por décadas

Análise · Dra. Camila Torres

Há uma assimetria que vale nomear antes de qualquer outra coisa: a menopausa afeta metade da população mundial em algum momento da vida, e ainda assim chegou tarde demais às pautas de saúde pública, às grades curriculares das faculdades de medicina e às conversas que acontecem em voz alta. O debate levantado pela colunista da Folha de S.Paulo não é, portanto, apenas político — é epidemiológico.

A transição menopausal, que inclui o período perimenopáusico anterior à cessação definitiva dos ciclos, envolve alterações hormonais com repercussões documentadas em múltiplos sistemas: cardiovascular, ósseo, neurológico, metabólico. Não é uma doença. Mas tampouco é um evento neutro que o corpo atravessa sem custo. A distinção importa porque os dois extremos — patologizar o processo inteiro ou minimizá-lo como "coisa da cabeça" — produziram, historicamente, dano real a mulheres reais.

O silêncio não foi acidental. Ele teve arquitetos. A medicina do século XX tratou a menopausa ora como declínio a ser corrigido com hormônios em dose indiscriminada, ora como fase a ser suportada em silêncio doméstico. O estudo Women's Health Initiative, publicado no JAMA em 2002, ao associar terapia hormonal combinada a riscos cardiovasculares e de câncer de mama em determinados perfis, gerou um recuo tão abrupto que muitas mulheres elegíveis para o tratamento ficaram sem acesso a ele por anos — e algumas ainda ficam, por médicos que não atualizaram a leitura da evidência desde então. A ciência avançou. A percepção pública, nem sempre.

Quando a colunista escreve que viveu isso na própria pele aos 50 anos, ela faz algo que os dados sozinhos não conseguem: devolve escala humana a um fenômeno que a medicina frequentemente trata em abstrato.

A chamada por unidade entre mulheres de diferentes posições ideológicas tem fundamento prático. Direitos relacionados à menopausa — reconhecimento de afastamentos, adaptações no ambiente de trabalho, acesso equânime a acompanhamento clínico no sistema público — não pertencem a nenhum campo político específico. Pertencem ao campo da saúde coletiva. E saúde coletiva, quando funciona, é pragmática antes de ser ideológica.

O que está em jogo não é apenas conforto. Osteoporose, doença cardiovascular e alterações cognitivas associadas ao hipoestrogenismo têm janelas de intervenção. Deixar mulheres sem informação clara, sem profissionais capacitados e sem estrutura de suporte é, tecnicamente, uma falha de sistema — não uma fatalidade biológica.

O mérito do debate aberto pela colunista está precisamente em recusar os dois silêncios disponíveis: o da vergonha e o da resignação. A menopausa não precisa de romantização nem de catastrofização. Precisa de consultas, de evidência atualizada, de política pública e, antes de tudo, de linguagem — a que permite que uma mulher de 47 anos reconheça o que está acontecendo no próprio corpo e saiba a quem recorrer.

Isso não é pouco. Durante milênios, foi quase impossível.

Dra. Camila Torres — Saúde — chefia. Xaplin.

Leia o factual: Colunista debate direitos e visibilidade da menopausa

Fontes: Folha de S.Paulo · UOL

Este conteúdo não substitui orientação médica individual. Em caso de dúvida, procure um serviço de saúde.