Mais que um número, uma nova composição da força de trabalho
Análise · Ricardo Mendes A fotografia de junho do mercado de trabalho formal brasileiro revela mais do que a criação de vagas.
Análise · Ricardo Mendes
A fotografia de junho do mercado de trabalho formal brasileiro revela mais do que a criação de vagas. Ela aponta para uma alteração gradual, mas inequívoca, na composição da força de trabalho. As mulheres, que em janeiro de 2023 ocupavam 44,2% dos postos formais, agora representam 46,4%. Um avanço de 2,2 pontos percentuais em pouco mais de três anos não é um ruído estatístico; é um sinal de tendência.
O dado agregado, 62,8 milhões de vínculos de emprego, esconde a dinâmica que produziu essa mudança. Desde o início de 2023, o país adicionou 10,1 milhões de postos de trabalho com carteira assinada ou no serviço público. A questão relevante para a análise é quem ocupou esses novos empregos. A resposta está na decomposição do saldo: 5,8 milhões de vagas foram preenchidas por mulheres, contra 4,3 milhões por homens. Para cada dez novos postos formais criados no período, quase seis foram para o público feminino.
Esta não é uma narrativa sobre um grupo avançando sobre o outro. É a crônica de uma expansão do mercado de trabalho que se deu de forma assimétrica, absorvendo com mais intensidade a mão de obra feminina. A Relação Anual de Informações Sociais (Rais), fonte destes dados, funciona como um censo do emprego, e sua leitura ao longo do tempo permite observar essas transformações de fundo.
A qualificação da informação
Outra mudança, menos visível porém de igual importância, ocorreu na qualidade do próprio dado. O número de vínculos sem informação racial declarada caiu de 17,2 milhões para 3,1 milhões. A subsecretária de Estatística do MTE, Paula Montagner, atribuiu a melhora a uma "campanha forte com as empresas". Isso significa que, hoje, a análise sobre a diversidade no emprego formal se apoia em uma base de dados substancialmente mais robusta. O retrato está mais nítido.
Com essa nitidez, emerge um mercado onde trabalhadores autodeclarados pardos (27,3 milhões) e brancos (26,8 milhões) formam os dois maiores contingentes, e onde mais da metade da força de trabalho possui ensino médio completo.
A estrutura etária também se moveu. Com 74% dos trabalhadores com 30 anos ou mais, o perfil do emprego formal é maduro. A expansão recente foi puxada por trabalhadores mais experientes, não pela entrada de jovens no primeiro emprego.
A economia é um organismo vivo, cujas transformações estruturais são lentas e, por vezes, silenciosas. Os números de junho mostram um mercado de trabalho que não apenas cresce, mas se recompõe em gênero e se torna mais transparente em sua demografia. A questão que permanece é se essa reconfiguração se traduzirá, no mesmo ritmo, em paridade de rendimentos e acesso a postos de comando.
Ricardo Mendes — Economia — chefia. Xaplin.
Leia o factual: Diferença de gênero no emprego formal cai no Brasil em junho
Fonte: Agência Brasil