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Os maestros que o Brasil esqueceu — e o mundo não

MAESTROS O Brasil tem uma tradição de música erudita que poucos brasileiros conhecem — mas que os maiores conservatórios do mundo estudam com...

MAESTROS

O Brasil tem uma tradição de música erudita que poucos brasileiros conhecem — mas que os maiores conservatórios do mundo estudam com reverência.

Quando se fala em "música brasileira", o imaginário vai direto para samba, bossa nova, MPB, sertanejo. Como se o país só produzisse música popular. É um equívoco tão grande quanto dizer que a Itália só fez pizza — esquecendo da ópera.

Heitor Villa-Lobos (1887-1959)

O gigante. Compôs mais de mil obras. As Bachianas Brasileiras são uma das mais extraordinárias fusões já criadas: Bach filtrado pela floresta amazônica, pelo choro carioca, pela alma de um país que ainda se inventava. Villa-Lobos não era apenas um compositor brasileiro — era um compositor que só poderia ser brasileiro.

A Bachiana nº 5, para soprano e oito violoncelos, é possivelmente a peça de música erudita brasileira mais bonita já escrita. Quem ouve pela primeira vez não sabe se está chorando pela música ou pela beleza de ter nascido no mesmo país que a criou.

Carlos Gomes (1836-1896)

Antes de Villa-Lobos, houve Carlos Gomes. O campineiro que conquistou o Scala de Milão com Il Guarany em 1870 — época em que o Brasil ainda era Império e a ideia de um compositor brasileiro triunfar na Europa era tão improvável quanto um astronauta.

Eleazar de Carvalho (1912-1996)

O maestro. Regeu as maiores orquestras do mundo — Boston, Berlin, London. Formou uma geração inteira de músicos brasileiros. Era temido pela exigência e respeitado pelo ouvido infalível. Quando Eleazar apontava o erro, o músico sabia que era erro.

Isaac Karabtchevsky (1934-)

Gaúcho, filho de imigrantes russos, regente da Orquestra Sinfônica Brasileira por décadas. Fez mais pela música erudita no Brasil do que qualquer política cultural. Karabtchevsky é a prova de que a paixão de um indivíduo pode sustentar uma tradição inteira.

Guerra-Peixe, Camargo Guarnieri, Cláudio Santoro

Os três mosqueteiros do nacionalismo musical brasileiro pós-Villa-Lobos. Cada um encontrou seu caminho entre a tradição europeia e a alma brasileira. Guerra-Peixe estudou as cirandas do Recife. Guarnieri trouxe o interior paulista para a sinfonia. Santoro flertou com o dodecafonismo sem perder o sotaque.

Para ouvir agora

  • Bachianas Brasileiras nº 5 — Villa-Lobos (soprano: Anna Moffo)
  • Il Guarany — Overture — Carlos Gomes
  • Sinfonia nº 10 — Cláudio Santoro
  • Ponteios — Camargo Guarnieri (piano: Cristina Ortiz)
  • Suite para Cordas — Guerra-Peixe

O Brasil produz os maiores músicos populares do mundo. Mas também produz — e sempre produziu — música erudita de classe mundial. A diferença é que ninguém conta.

Lado B. conta.

Seção Maestros — Lado B. na Xaplin.