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"Ainda Estou Aqui" — O Filme Que Fez o Brasil Se Lembrar de Si Mesmo

Porque a diferença entre um momento (a vitória) e um movimento (a transformação) está no que acontece depois.

Intermezzo — Cultura

"Ainda Estou Aqui" ganhou o Oscar. E daí? A pergunta não é cínica — é necessária. Porque a diferença entre um momento (a vitória) e um movimento (a transformação) está no que acontece depois. E o que acontece depois do Oscar define se o cinema brasileiro avança ou se contenta com a estátua na estante.

O que o Oscar é

O Oscar é um prêmio da indústria de Hollywood dado por 9.500 profissionais americanos e internacionais. Não é o Nobel da cultura. Não é uma avaliação objetiva de qualidade. É uma escolha de consenso dentro de um ecossistema específico — e como todo consenso, reflete tanto mérito quanto política, timing e campanha. Dizer isso não diminui a vitória de Walter Salles; contextualiza.

O que o Oscar faz

Abre portas. Distribuidoras que antes ignoravam o cinema brasileiro agora respondem e-mails. A Netflix investiu R$ 800 milhões em produções brasileiras para 2026-2027. A A24 assinou acordo com a RT Features. O BFI (British Film Institute) programou uma retrospectiva do cinema brasileiro. A atenção é real — e atenção, no mercado audiovisual, se traduz em dinheiro.

O que o Oscar não faz

Não muda a estrutura. O cinema brasileiro continua dependente de editais públicos (que mudam a cada governo), de lei de incentivo (que empresas usam como marketing, não como investimento cultural), e de um mercado exibidor controlado por cadeias que priorizam Hollywood. Filmes brasileiros ocupam 11% da bilheteria nacional — contra 50% na França, 40% na Coreia do Sul e 25% na Índia.

"O Oscar é a porta. Mas a casa por trás da porta precisa de reforma: mais salas, mais público, mais sustentabilidade. Uma estatueta não substitui uma política."

O que precisa acontecer agora

A Embrafilme precisa virar política de Estado, não de governo. A cota de tela precisa ser fiscalizada (e aumentada). As plataformas de streaming precisam investir não apenas em conteúdo brasileiro, mas em conteúdo diverso — não só adaptações de best-sellers, mas cinema autoral, documentário, experimentação. E o público brasileiro precisa redescobrir o próprio cinema — ir ao cinema nacional não por obrigação patriótica, mas porque é bom. Porque é muito bom.

A redação da Intermezzo