Inflação, um jogo de esconde-esconde
Análise · Ricardo Mendes O número é baixo, quase um ruído estatístico.
Análise · Ricardo Mendes
O número é baixo, quase um ruído estatístico. O IPCA de julho marcou 0,07%, uma desaceleração notável frente aos 0,16% de junho. No acumulado em doze meses, o índice cedeu de 4,64% para 4,44%. Um observador apressado poderia celebrar a convergência da inflação para o centro da meta. A realidade, porém, reside nos detalhes da composição, onde se trava a batalha real sobre o poder de compra e o futuro da política monetária.
A tranquilidade do índice geral é obra de uma deflação aguda e localizada. O grupo Alimentação e bebidas recuou 0,67%, impulsionado por itens voláteis como o tomate, com queda de 29,09%, e a batata-inglesa, 19,59% mais barata. São preços de safra, suscetíveis a variações climáticas e logísticas, cuja contribuição para a estabilidade de longo prazo é notoriamente frágil. São eles os responsáveis pelo alívio no bolso do consumidor que cozinha em casa, onde a queda foi de 1,14%.
Enquanto o preço da feira caía, outros componentes da cesta de consumo mostravam uma dinâmica distinta e mais preocupante. O grupo Habitação, por exemplo, avançou 0,99%, puxado pela alta de 3,09% na energia elétrica residencial. Este é um preço administrado, menos sensível à política de juros do Banco Central e com impacto disseminado. Sozinho, o reajuste na conta de luz respondeu por 0,13 ponto percentual do índice — o dobro da inflação total do mês.
O contraste se aprofunda quando se observa a alimentação fora do domicílio, que subiu 0,55%, acelerando ante os 0,15% do mês anterior. Este é um indicador mais fiel da inflação de serviços, aquela que reflete a pressão de demanda e a inércia dos custos com salários e aluguéis. É para ela que o Comitê de Política Monetária dirige seu olhar mais atento. A queda do tomate no supermercado é bem-vinda, mas a alta do lanche na padaria (0,76%) conta uma história diferente.
A inflação de julho não é um sinal inequívoco de vitória. É, antes, um retrato de forças opostas em equilíbrio instável: de um lado, a trégua de itens voláteis; do outro, a pressão persistente de preços administrados e de serviços. O número baixo na manchete esconde uma composição que ainda exige cautela.
Para quem viveu a indexação e a hiperinflação, a lição é clara: a estabilidade de preços é uma construção paciente, não um evento fortuito. A queda do tomate ajuda, mas será que paga a conta de luz?
Ricardo Mendes
Economia — chefia da Xaplin
Ricardo Mendes — Economia — chefia. Xaplin.
Leia o factual: IPCA desacelera para 0,07% em julho com queda em alimentos
Fontes: g1 · CNN Brasil