Compor às 3 da manhã: por que as melhores músicas nascem
ESTÚDIO por Heitor Ventura Às 3 da manhã, o censor interno dorme. E quando ele dorme, a música acontece. Eu componho há 30 anos.
ESTÚDIO
por Heitor Ventura
Às 3 da manhã, o censor interno dorme. E quando ele dorme, a música acontece.
Eu componho há 30 anos. Já escrevi centenas de canções — algumas boas, a maioria medíocre, umas poucas que me fazem acreditar que vale a pena continuar. E quase todas as boas nasceram de madrugada.
Não é misticismo. É neurociência: à noite, o córtex pré-frontal — a parte do cérebro responsável por julgamento e autocrítica — reduz sua atividade. Você fica mais solto. Mais livre. Menos preocupado em ser genial e mais disponível para ser honesto.
De dia, quando sento para compor, penso demais. "Isso já foi feito." "Essa progressão é óbvia." "Ninguém quer ouvir isso." O censor interno — esse editor implacável que mora entre o ouvido e a mão — bloqueia cada tentativa.
De madrugada, o censor cala a boca. E eu toco. Sem julgar. Sem editar. Sem comparar com Chico ou Djavan ou quem quer que seja o gênio do momento. Toco o que sai. E o que sai, às vezes, é verdadeiro.
O método (se é que existe um)
Não tenho método. Tenho rituais. Café (sempre). Violão no colo (nunca guitarra — a guitarra é instrumento de palco, o violão é instrumento de conversa). Celular no modo avião (o WhatsApp é inimigo da arte). Luz baixa.
Começo com um acorde. Qualquer um. E deixo a mão caminhar. Os dedos sabem coisas que a cabeça não sabe. A mão esquerda acha acordes que eu não planejei. A mão direita encontra ritmos que eu não conhecia. E de repente, numa fresta entre dois acordes, aparece uma melodia que parece ter sempre existido — só estava esperando alguém tocá-la.
É para isso que a gente compõe: para encontrar as melodias que já existem no silêncio.
Lennon dizia que as músicas estão flutuando no ar e o compositor é só uma antena. Eu acho que ele estava certo — especialmente às 3 da manhã, quando a recepção é melhor.
Heitor Ventura é músico, compositor e colunista de Lado B. na Xaplin.