Filosofia de Ponto de Ônibus
Eu estava sentada no banco de concreto com a bolsa no colo e o joelho doendo, como sempre dói quando muda o tempo.
XAPLIN EBOOKS
FILOSOFIA DE PONTO DE ÔNIBUS
por Dona Carmem
"Oito ministros exonerados", leu o rapaz no celular, alto, como se o ponto de ônibus fosse uma redação de jornal. Eu estava sentada no banco de concreto com a bolsa no colo e o joelho doendo, como sempre dói quando muda o tempo.
"E daí?", disse o senhor de boné, sem tirar os olhos do horizonte onde o ônibus deveria estar e não estava. "Ministro sai, ministro entra. O 474 é que não vem nunca."
Ele tem razão, o senhor de boné. Tem uma sabedoria de quem espera ônibus há 60 anos e já desistiu de esperar coerência de horário ou de governo. A política é como o transporte público carioca: promete, atrasa, e quando chega, está lotada.
"Mas olha", eu disse, porque quando fico quieta demais no ponto de ônibus me sinto invisível, e mulher da minha idade já é invisível demais, "o Alckmin fica. Isso quer dizer alguma coisa."
"Quer dizer que não encontraram ninguém melhor", disse a moça de fone de ouvido, que aparentemente estava ouvindo tudo mesmo fingindo que não.
Rimos os três. Rir no ponto de ônibus é a única coisa que o governo não consegue taxar. Ainda.
O 474 chegou vinte minutos depois. Lotado, como a reforma ministerial: cheio de gente querendo ir pra algum lugar, sem muito espaço para se mover.
Entrei mesmo assim. A gente sempre entra. O brasileiro entra no ônibus lotado, no governo confuso, no ano complicado. Entra e segura na barra de ferro e faz cara de quem sabe o que está fazendo.
Ninguém sabe. Mas todo mundo vai.
Dona Carmem é a filósofa de ponto de ônibus da Bica. na Xaplin.
Pagamento seguro via Stripe · Cartão, boleto ou transferência