Felipão fala sobre medo e honestidade que Copa exige
Técnicos de seleção brasileira raramente admitem medo em público. Análise sobre as pressões que a competição impõe.
Análise · Marcos Tibúrcio
Há uma palavra que técnico de seleção brasileira não costuma pronunciar em público. Essa palavra é medo. Luiz Felipe Scolari pronunciou. Duas vezes. E acrescentou outra, quase sinônima: receio. Disse isso sobre o Japão e sobre a Holanda, equipes que podem cruzar o caminho do Brasil no mata-mata desta Copa do Mundo.
O contexto importa. Neste domingo, Japão e Holanda empataram em 2 a 2 num jogo que, para quem acompanha o torneio, foi o melhor da competição até aqui. Não é pouca coisa. Numa Copa sediada em três países, com 48 seleções e um calendário que some com a lógica tradicional, o jogo que parou gente foi justamente esse. Dois times que jogaram futebol de verdade — com velocidade, convicção e disposição para atacar e sofrer ao mesmo tempo.
Felipão viu isso. E falou o que viu.
Há quem leia a declaração como fraqueza. Seria um equívoco. Um técnico que nega a qualidade do adversário não está sendo corajoso — está sendo impreciso. E imprecisão, em mata-mata de Copa do Mundo, tem endereço certo: a eliminação. Felipão, que já levantou uma taça com este mesmo país em 2002, sabe disso melhor do que a maioria.
O Japão não é mais a seleção exótica que o mundo ocidental admirava de longe. É uma equipe de posse, pressão e transição rápida, treinada por um método europeu aplicado com disciplina asiática. A Holanda, por sua vez, voltou a ser a Holanda — aquela que nunca joga feio mesmo quando perde.
O Brasil, até aqui, ainda não mostrou a que veio de forma convincente. E é nesse espaço — entre o que o time ainda não entregou e o que os adversários já entregaram — que a declaração de Felipão ganha peso real. Ele não está sendo humilde por protocolo. Está lendo o torneio.
A Copa de 2026 tem sido, desde o apito inicial, um torneio de surpresas administradas. As chamadas grandes seleções existem, mas o campo nivelou. Quem entrar desatento contra Japão ou Holanda não vai perder por azar. Vai perder porque o adversário jogou melhor, mais rápido e com mais clareza de propósito.
Medo, disse Felipão. A palavra escolhida pelo técnico é também a palavra certa para descrever o que uma Copa exige de quem quer vencê-la: respeito genuíno pelo adversário, sem reverência paralisante. A diferença entre os dois está em como o Brasil vai a campo. E isso, ainda, está por ser visto.
Marcos Tibúrcio
Marcos Tibúrcio — Esporte — chefia. Xaplin.
Leia o factual: Felipão diz ter "medo e receio" de Japão e Holanda na Copa
Fonte: ge