Endrick ainda não jogou, mas mercado já o julgou
Análise de como o futebol moderno transforma expectativa em personagem antes mesmo da estreia oficial.
Análise · Marcos Tibúrcio
Há uma lógica cruel no futebol moderno que transforma expectativa em personagem antes mesmo de a bola rolar. Endrick não entrou em campo na estreia do Brasil contra o Marrocos. Ficou no banco — por razões táticas que o repórter Cahê Mota foi apurar, porque a ausência de um jogador daquele perfil num empate exige explicação. E, mesmo assim, em menos de 24 horas, quase 600 mil pessoas passaram a seguir o menino nas redes sociais.
Pense nisso com calma. Não foi um gol. Não foi uma jogada. Não foi nem uma entrada de cinco minutos com a camisa suada. Foi a ausência. Foi o rosto na câmera, o aquecimento na beira do campo, o nome na lista de convocados. Foi a promessa ainda guardada no bolso.
O Brasil não venceu. Empatou com o Marrocos — resultado que, numa estreia de Copa, carrega o peso específico da decepção contida. A seleção não convenceu o suficiente para que ninguém precisasse de explicação. E mesmo assim, o que dominou as menções na internet não foi o placar, não foi o sistema tático, não foi o técnico. Foi Endrick. O que não aconteceu foi maior do que o que aconteceu.
Isso tem um nome no futebol: é o fenômeno. Não no sentido gasto da palavra, mas no sentido original — aquilo que se manifesta antes de ser completamente compreendido. Ronaldo era assim em 1994, no banco, com 17 anos, sem entrar em nenhum jogo. Voltou em 1998 como o centro do mundo. A Copa tem essa vocação para revelar e para adiar revelações, e o adiamento, às vezes, infla o mito mais do que a estreia.
A questão tática é legítima e merece resposta. Por que Endrick ficou fora diante de um Marrocos que, segundo o próprio relato da apuração, postou sete homens atrás da linha da bola no primeiro tempo? Há uma leitura de jogo aí que o técnico terá de justificar — não à imprensa, mas ao torneio. Porque Copa do Mundo não perdoa economia de explicação.
Mas o que os 600 mil seguidores dizem é outra coisa. Dizem que o Brasil, lá fora e aqui dentro, já escolheu seu personagem para este torneio. E personagem de Copa, uma vez escolhido, não volta para o banco em silêncio.
A estreia ainda está por vir. E quando vier — se o técnico tiver coragem ou necessidade de escalá-lo —, virá carregada de tudo isso. Do empate sem brilho, da espera, dos 600 mil que chegaram sem ver nada ainda. Endrick vai a campo, quando for, com o peso da antecipação nas costas. Que é, no fundo, o peso mais bonito que existe no futebol.
— Marcos Tibúrcio
Marcos Tibúrcio — Esporte — chefia. Xaplin.
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Fonte: ge