Eldorado do Sul, outra vez: o que 180 telhados dizem
Análise · Renata Peixoto Setecentas e vinte pessoas sem casa em Eldorado do Sul não é evento climático.
Análise · Renata Peixoto
Setecentas e vinte pessoas sem casa em Eldorado do Sul não é evento climático. É o resultado de décadas de política habitacional que empurrou famílias de baixa renda para municípios da região metropolitana de Porto Alegre sem a infraestrutura que deveria acompanhá-las. O temporal de sábado, 11 de julho — ventos fortes, granizo, chuva concentrada — fez 180 casas destelhadas e dez destruídas. A Defesa Civil decretou emergência. A prefeitura distribuiu colchão e cobertor. O roteiro é conhecido demais.
Eldorado do Sul está na margem esquerda do Jacuí, a menos de 30 quilômetros do centro de Porto Alegre. É exatamente o tipo de município que absorveu o transbordamento populacional da capital nas últimas três décadas — crescimento sem plano diretor robusto, sem fiscalização de obras, sem código de posturas aplicado. Quando uma edificação é construída sem viga de amarração, sem telha fixada com parafuso, sem alvenaria estrutural adequada, não é a chuva que a destrói: é a omissão que antecedeu a chuva por anos.
Dez casas destruídas numa noite. Trezentas e sessenta pessoas que moravam nelas acordaram no domingo sem endereço.
A promessa da prefeitura de reconstruir as unidades danificadas com recursos estaduais e federais abre uma questão que o texto oficial não responde: reconstruir onde, como e com qual padrão construtivo? Se as casas destruídas estavam em área de risco, reconstruí-las no mesmo ponto é replicar o problema com obra nova. Se estavam em área regular mas com construção precária, a reconstrução precisa incluir assistência técnica — não apenas material. A diferença entre as duas respostas não é técnica: é política.
A Defesa Civil do Rio Grande do Sul já sinalizou chuvas intensas previstas a partir do dia 16. Isso significa que Eldorado do Sul entra na próxima frente com 720 pessoas ainda sem moradia consolidada, postes derrubados, abastecimento de água e energia interrompidos — e aulas suspensas, o que sempre indica que a escola virou ponto de acolhimento, função nobre e improvisada ao mesmo tempo. O município opera, agora, no limite da capacidade de resposta imediata.
O que a chuva não explica
Há uma tendência confortável de atribuir eventos como este à "força da natureza" e encerrar o raciocínio aí. Mas ventos fortes e granizo não escolhem endereço: escolhem as casas mais vulneráveis nos endereços mais vulneráveis. O estoque habitacional precário da região metropolitana de Porto Alegre — resultado direto de décadas de ausência do poder público na regularização fundiária e na assistência técnica à moradia popular — é o que transforma tempestade em catástrofe social. A chuva é o gatilho. A política habitacional mal feita é a estrutura que desaba.
Cento e oitenta telhados levantados em uma noite não pedem metáfora. Pedem resposta que não recomece do zero na próxima quinta-feira, quando a previsão anuncia a próxima frente.
Renata Peixoto — Cidades — chefia. Xaplin.
Leia o factual: Chuvas deixam 720 desabrigados em Eldorado do Sul
Fonte: Agência Brasil