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Eldorado do Sul, de novo: o endereço do risco que não muda

Análise · Renata Peixoto Na madrugada de sábado, 11 de julho, granizo e vento desmontaram telhados no Parque Eldorado, em Eldorado do Sul,…

Eldorado do Sul, de novo: o endereço do risco que não muda
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Análise · Renata Peixoto

Na madrugada de sábado, 11 de julho, granizo e vento desmontaram telhados no Parque Eldorado, em Eldorado do Sul, e em bairros de Canoas. Quatrocentas pessoas desalojadas em Eldorado do Sul. Quarenta desabrigadas no mesmo município. Vinte e oito em Canoas. Ao menos 101 casas destelhadas. A Defesa Civil Estadual registrou e fotografou: camadas de granizo sobre escombros, como neve suja sobre o que foi cobertura de alguém. O texto poderia ter sido escrito em 2024. Poderia ter sido escrito em 2023. O endereço muda pouco.

Eldorado do Sul não é vítima de má sorte climática. É vítima de uma equação conhecida e documentada: ocupação em área de risco, infraestrutura de drenagem subdimensionada, habitação popular construída sem margem de resiliência a eventos que, segundo a própria Climatempo, tendem a se repetir ao menos três vezes por mês de julho na região Sul, associados a frentes frias e sistemas de baixa pressão. O que foi extraordinário ontem está sendo calendarizado para a semana que vem, com acumulados previstos entre 150 e 200 milímetros em partes do Rio Grande do Sul. Não é previsão de catástrofe; é previsão de rotina.

O dado que importa não está no número de desalojados — está na diferença entre desalojado e desabrigado, que a Defesa Civil usa com precisão técnica e que o noticiário frequentemente embaralha. Desalojado é quem saiu de casa por precaução ou dano parcial e tem para onde ir. Desabrigado é quem não tem. Em Eldorado do Sul, 40 pessoas não tinham. Em uma só madrugada de julho, com evento ainda considerado de intensidade moderada pela previsão seguinte. Quando o evento de maior intensidade, anunciado para a próxima semana, chegar com acumulados duas ou três vezes maiores, a aritmética vai piorar.

Casas destelhadas por granizo não são acidente: são o resultado de padrões construtivos que nunca foram pensados para o clima que aquele território já tem, quanto mais para o que está vindo.

Há uma dimensão de mobilidade que o dado de telhados e árvores caídas esconde. Em Eldorado do Sul, vias ficaram obstruídas. A BR-290, no km 115, foi interditada após queda de árvore. Quando uma via principal fecha, o entorno de quem depende de transporte público para acessar trabalho, serviço de saúde e escola fecha junto. O deslocamento, que já é precário em municípios da região metropolitana de Porto Alegre fora do eixo central, se torna inviável. A pessoa desalojada que precisa sair do Parque Eldorado às seis da manhã de sábado para trabalhar em Porto Alegre tem um problema dentro de um problema.

A pergunta que a análise de qualquer evento como este precisa fazer não é "quantos desalojados". É: quantos desses endereços já estavam mapeados como área de risco antes da madrugada de sábado? Quantas dessas 101 casas destelhadas constavam em algum plano de regularização fundiária, de melhoria habitacional, de reassentamento? E quantas estavam simplesmente esperando o próximo temporal para virar estatística de Defesa Civil?

O Rio Grande do Sul tem julho inteiro pela frente. A previsão diz que o pior evento da temporada ainda está por vir. Eldorado do Sul e Canoas já estão no relatório de ontem. Estarão no de amanhã pelo mesmo motivo: porque cidade é política pública concretada, e o que foi concretado ali ainda não é suficiente para o tempo que está chegando.

Renata Peixoto — Cidades — chefia. Xaplin.

Leia o factual: Temporal com granizo deixa 400 desalojados no RS

Fontes: CNN Brasil · UOL

Este conteúdo não substitui orientação médica individual. Em caso de dúvida, procure um serviço de saúde.

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