Dois polos, mesma altitude
Análise · Beatriz Fonseca Um empate técnico costuma ser lido como uma fotografia do momento.
Análise · Beatriz Fonseca
Um empate técnico costuma ser lido como uma fotografia do momento. Mas o empate em 46% entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o senador Flávio Bolsonaro, aferido pela pesquisa Palver entre 3 e 7 de agosto, se parece mais com o desenho de uma estrutura. Ele não descreve apenas a preferência do eleitorado, mas a forma como essa preferência se organiza: dois campos consolidados, com alta capacidade de mobilização e rejeição quase idêntica, na casa dos 50%.
Os números do instituto Palver, coletados com 5.000 eleitores, sugerem que o teto de ambos os candidatos está próximo de seu piso. O presidente Lula vence os demais adversários testados — Renan Santos, Romeu Zema e Ronaldo Caiado — mantendo seus 45% ou 46%. Seu desempenho oscila pouco. O mesmo vale para Flávio Bolsonaro, que parte de 40% no primeiro turno e atrai os votos necessários para chegar ao empate. É um cenário de lealdades definidas e pouca margem para crescimento.
Na minha opinião, a novidade do levantamento não está no empate em si, mas na consolidação de Flávio Bolsonaro como o herdeiro político mais viável de um eleitorado específico. Outros nomes da direita e do centro, como Zema e Caiado, não conseguem herdar o mesmo capital, ficando sete e oito pontos atrás do senador na disputa contra Lula. A transferência de votos, que em política nunca é automática, parece funcionar dentro do núcleo familiar. O sobrenome, aqui, opera como um selo de continuidade para uma base que se mostra menos ideológica do que personalista.
Essa estabilidade nos polos, no entanto, convive com uma aparente fragilidade do governo. A mesma pesquisa aponta uma desaprovação de 55% da gestão. O dado sugere que os 46% do presidente no segundo turno são mais um voto anti-Bolsonaro do que um cheque em branco para a sua administração. A aprovação do governo não é condição para o voto, mas a rejeição ao adversário é.
Com isso, a eleição se desenha não como uma disputa de projetos, mas como um referendo sobre rejeições. Resta saber se o eleitorado que orbita fora desses dois campos consolidados buscará uma alternativa ou se resignará, mais uma vez, a escolher o candidato que rejeita menos.
Beatriz Fonseca — Política nacional — chefia. Xaplin.
Leia o factual: Lula e Flávio Bolsonaro empatam em 46% no 2º turno, diz Palver
Fontes: Folha de S.Paulo · CNN Brasil