Damião se despede do futebol após último apito em Campinas
O zagueiro Damião, símbolo do futebol amador de Campinas, pendura as chuteiras. Relembre a trajetória do jogador.
Análise · Marcos Tibúrcio
Haverá um dia, em Campinas, em que um zagueiro de bairro, funcionário dos Correios na segunda-feira, contará ao filho que marcou o homem da bicicleta. Não uma bicicleta qualquer. A de Leandro Damião, centroavante que já vestiu a camisa da Seleção Brasileira e levantou a taça da Libertadores diante de um Beira-Rio que se desfazia em prantos.
Este dia está marcado: 13 de setembro. O palco não será o Maracanã nem o San Siro. Será o campo de terra batida do Parque Brasília, pela Série Ouro da cidade.
Ao lado de Damião, outro fantasma dos grandes estádios: Paulinho, atacante que um dia vestiu a camisa do Flamengo e prometeu aos rubro-negros uma velocidade que a carreira não soube sustentar. Juntos, aos 37 e 38 anos, formam o que o futebol tem de mais cruel e mais belo — a memória em chuteiras. A glória é para sempre; a perna, não.
Há quem enxergue apenas decadência no homem que troca o holofote pelo poste de luz precário da várzea. É uma leitura, talvez a mais fácil. Outra, no entanto, é a do ofício que se recusa a morrer. O artilheiro não se aposenta do gol. Ele apenas muda de endereço. Damião, que se despediu do Coritiba em 2024, já rodou por Sorocaba e Jundiaí. Não caça mais contratos milionários, busca o apito do juiz no domingo de manhã, o grito que vem do alambrado, a bola que ainda pede para ser guardada na rede.
O Parque Brasília, campeão da liga em 2022, aposta nos nomes para reaver a coroa. É a lógica do tempo. Contrata-se o que o jogador foi, na esperança de que um vislumbre do passado ilumine o presente modesto. Para a arquibancada do Dic City, do Granada ou do Grêmio Cafezinho, não importa se Damião tem o arranque de 2010. Importa que ele *é* o Damião de 2010. O futebol, na várzea, não é o que se vê; é o que se lembra.
O que leva um homem que já ouviu 80 mil pessoas gritarem seu nome a buscar o aplauso de algumas centenas? Talvez a resposta não esteja na cabeça, mas no corpo. O corpo que, como disse Muricy Ramalho sobre outros craques, já não obedece como antes, mas ainda sabe o caminho. Sabe o gesto. A bola que espirra na área e encontra um pé que esteve lá, em finais, em clássicos, em noites de glória continental.
É o último ato. O drama final do jogador que não consegue parar de jogar. E quem pode culpá-lo?
Marcos Tibúrcio — Esporte — chefia. Xaplin.
Leia o factual: Leandro Damião estreia em Campinas na Série Ouro em 13 de setembro
Fonte: ge