A Mulher que Largou Tudo para Abrir uma Livraria — e faliu em 6 meses

Uma crônica ácida sobre sonhos, fracassos e a coragem absurda de quem aposta tudo em livros.

Bica. — Crônica

A Fernanda abriu a livraria em março de 2019. Chamava "Página 7" — porque, dizia ela, é na página 7 que a gente decide se continua lendo. O aluguel era caro demais, o ponto era bom demais (Rua Augusta, esquina com a Consolação), e a pandemia chegou exatamente 12 meses depois, com a gentileza de uma tsunami e o timing de um vilão de novela.

Ela aguentou. De março a dezembro de 2020, vendeu livros pelo Instagram, entregou de bicicleta, fez lives lendo trechos de Clarice para 14 pessoas às 23h de uma quarta-feira. Quatorze pessoas que, ela jurava, eram as 14 pessoas mais importantes do mundo. Em janeiro de 2021, reabriu. Em abril, fechou. Em setembro, reabriu de novo. A Página 7 era como um livro que ninguém conseguia terminar — nem a autora.

"Abrir uma livraria no Brasil é um ato de fé. Mantê-la aberta é um ato de teimosia. Fechá-la é um ato de honestidade sobre o país em que vivemos."

O fim veio em outubro de 2024. Não com drama, não com falência espetacular. Veio com cansaço. Fernanda acordou uma terça-feira, olhou para as pilhas de Saramago que não vendiam, para o aluguel que dobrou, para a planilha que mostrava prejuízo pelo oitavo mês consecutivo, e percebeu que tinha dado tudo certo — e não tinha sido suficiente.

Ela fez a última live. Chorou. As 14 pessoas — agora eram 340 — choraram junto. Um sujeito chamado @leitor_insone mandou uma mensagem: "Você não faliu. O Brasil é que não merece livraria." A frase era generosa e injusta ao mesmo tempo — como toda consolação.

Fernanda vendeu o estoque a preço de banana (R$ 5 o livro, qualquer livro). A fila deu volta no quarteirão. Gente que nunca tinha entrado na Página 7 apareceu para comprar os restos. "Se tivessem vindo antes", pensou Fernanda, mas não disse. Não há sentido em cobrar de quem aparece tarde o pecado de não ter aparecido antes.

Hoje, Fernanda trabalha como editora freelancer. Mora em um apartamento menor, lê os mesmos livros, e às vezes passa pela Rua Augusta e olha para o ponto onde era a livraria. Agora é uma loja de açaí. Tem mais clientes em uma hora do que a Página 7 tinha em uma semana. O mercado falou — e o mercado, como sempre, não leu o livro.

Mas as 340 pessoas que estavam na última live lembram. E uma livraria que 340 pessoas lembram não faliu. Fechou — que é diferente. Falir é desaparecer. Fechar é parar. E a Fernanda não desapareceu. Está na página 7 da própria história — e decidiu continuar lendo.

Bica. — Crônicas do Cabaré Literário