A Livraria das Três da Manhã — Um conto de Lavínia Duarte
Ela trabalhava numa livraria 24 horas. Ele aparecia toda madrugada. Nunca comprava nada — até aquela noite.
A livraria ficava aberta até as três da manhã. Era esse o ponto — o nome, o conceito, a razão de existir. "Madrugada", dizia a placa em letras cursivas, e abaixo, em letras menores: "Livros e outras insônias." O dono, um senhor de setenta anos chamado Horácio, dizia que livro bom se lê de madrugada, "quando a mentira dorme e a verdade acorda".
Eu ia toda sexta-feira. Não por insônia — por hábito, que é a versão socialmente aceita do vício. Chegava às onze, percorria as estantes, escolhia um livro, sentava no sofá do fundo (que era mais um trono decrépito do que um sofá) e lia até o corpo pedir cama.
Ele apareceu numa sexta de outubro. Alto, moreno, óculos redondos que pareciam de outro século. Pegou um livro da estante de poesia — Adélia Prado, "Bagagem" — e sentou na poltrona ao lado do meu sofá. Leu em silêncio por quarenta minutos. Depois, sem levantar os olhos do livro, disse:
"'De vez em quando Deus me tira a poesia. Olho pedra, vejo pedra mesmo.' É o verso mais honesto da literatura brasileira."
Olhei para ele. Ele olhou para mim. E naquele olhar — entre estantes de livros usados, sob uma luz amarela que fazia tudo parecer memória — aconteceu aquela coisa que acontece raramente e que não tem nome bom em nenhum idioma: o reconhecimento. Não de rosto, não de nome. O reconhecimento de frequência. Como duas rádios que, por acaso, sintonizam a mesma estação.
"Você vem sempre aqui?" perguntei. A frase era clichê. Ele sorriu como quem reconhece o clichê e perdoa.
"Primeira vez. Mas acho que volto."
Voltou na sexta seguinte. E na outra. E na outra. Sempre o mesmo ritual: chegava às onze, pegava um livro de poesia (Drummond, Pessoa, Bishop, Szymborska), sentava na mesma poltrona. E conversávamos — entre os livros, sobre os livros, através dos livros. Cada autor era um pretexto para dizer algo que não ousávamos dizer diretamente.
"Existem pessoas que se encontram em festas. Outras, em aplicativos. Nós nos encontramos entre estantes — e é o único lugar onde fazia sentido."
Na quinta sexta-feira, ele me emprestou um livro. Dentro, um bilhete: "Página 47." Fui para casa, abri na página 47. O verso, sublinhado a lápis: "O amor é quando a gente mora um no outro." Fernando Pessoa.
Na sexta seguinte, às duas da manhã, quando Horácio já dormia atrás do balcão e a livraria era só nossa, ele segurou minha mão entre as estantes de ficção latino-americana. Eu não retirei. Ficamos ali, de mãos dadas, entre Borges e García Márquez, com a gravidade de quem sabe que certos gestos, por pequenos que pareçam, mudam a temperatura do universo.
O beijo aconteceu na seção de filosofia. Que é onde todos os beijos deveriam acontecer — porque todo beijo é, no fundo, uma pergunta existencial: "Você é real? Estou acordada? Isso é o que eu acho que é?"
Hoje, dois anos depois, ele ainda lê Adélia Prado. Eu ainda leio até as três da manhã. A livraria fechou — Horácio aposentou-se, vendeu o acervo, o espaço virou uma farmácia. Mas toda sexta-feira, às onze da noite, ele se senta ao meu lado no sofá da sala e lê. E eu leio. E entre as páginas, no silêncio, na presença sem urgência, acontece tudo o que importa.