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Caracas, quarto dia: o tempo que a terra não respeita

Análise · Clara Verdi Há uma crueldade específica no tremor que chega durante o resgate.

Caracas, quarto dia: o tempo que a terra não respeita

Análise · Clara Verdi

Há uma crueldade específica no tremor que chega durante o resgate. Não é o tremor original — aquele que destrói, que colapsa, que inaugura a catástrofe. É o tremor de confirmação, o que aparece quando os sobreviventes ainda estão sob os escombros e as equipes ainda estão de pé sobre eles, e a terra avisa que não terminou. O sismo de magnitude 4,6 que sacudiu Caracas nesta segunda-feira, quarto dia de buscas, é desse tipo. Tecnicamente menor. Politicamente devastador.

A Venezuela já carregava, antes desse episódio, uma infraestrutura urbana corroída por décadas de desinvestimento, pela hiperinflação que destruiu qualquer capacidade de manutenção pública, pela emigração em massa dos técnicos e engenheiros que poderiam ter mantido padrões de segurança. Caracas não é uma cidade que estava bem antes do tremor. Era uma cidade que já vivia em estado de emergência diferida — aquela condição que Agamben descreveria como a exceção tornado norma, exceto que aqui a exceção é estrutural, é cimento rachado, é prédio que já não deveria estar de pé.

O prazo para resgate que se esgota enquanto a terra treme de novo é uma imagem que condensa tudo isso com uma brutalidade que nenhuma análise econômica consegue reproduzir. As equipes de busca trabalham contra dois relógios simultâneos: o biológico, que dita quanto tempo um ser humano sobrevive soterrado, e o geológico, que não consulta nenhum dos dois.

O que se perde quando essa notícia vira uma nota — "novo tremor abala Caracas" — é a dimensão do que significa continuar cavando quando o chão sob seus pés é o mesmo chão que você está tentando desenterrar.

A cobertura internacional tende a enquadrar desastres como estes sob a chave da incompetência governamental ou, alternativamente, sob a chave da solidariedade humanitária. Ambos os enquadramentos são insuficientes. O que ocorre em Caracas é a sobreposição de uma crise geológica — imprevisível, democrática no sentido de que não escolhe regime — sobre uma crise política que tornou a cidade menos capaz de absorver qualquer choque. A magnitude 4,6 seria séria em qualquer contexto urbano; numa cidade que já estava fraturada antes, ela encontra menos resistência.

Há também o dado silencioso que os boletins não nomeiam: o medo dos próprios resgatadores. Trabalhar sobre estruturas comprometidas depois de um sismo inicial já exige um tipo de coragem que não está nos manuais. Trabalhar depois que a terra volta a tremer — mesmo que mais levemente — é outra coisa. É continuar sem a garantia de que o próximo não será maior.

A Venezuela chega a essa segunda-feira sem as reservas — materiais, institucionais, diplomáticas — que permitiriam absorver a crise com alguma eficácia. O tremor de 4,6 não vai reescrever essa equação. Vai apenas torná-la mais visível, por mais alguns dias, até que a atenção se desloque e Caracas volte a ser o que sempre foi na cobertura externa: um problema crônico que o mundo aprendeu a não ver.

Clara Verdi, correspondente Europa — Xaplin

Clara Verdi — Europa. Xaplin.

Leia o factual: Novo tremor de magnitude 4,6 sacode Caracas durante resgate

Fontes: Folha de S.Paulo · UOL