Calor mata 120 mil pessoas por ano: por que o Brasil ignora
Morte por calor extremo é tratada como acidente inevitável, não como crise de saúde pública. Análise com a epidemiologista Camila Torres.
Análise · Dra. Camila Torres
Há uma tendência quase irresistível de tratar a morte por calor como acidente de percurso — algo que acontece aos outros, em outros lugares, em verões extraordinários. O estudo divulgado nesta quarta-feira por pesquisadores da Fiocruz e da UFBA desfaz essa ilusão com uma cifra difícil de ignorar: 120 mil mortes associadas a ondas de calor no Brasil entre 2000 e 2019. Duas décadas. Um país inteiro. Uma média que, se linearizada, equivale a mais de 16 pessoas por dia.
O dado é inédito para o contexto brasileiro e merece ser lido com cuidado metodológico — e com a seriedade que os números de mortalidade exigem. Estudos de atribuição de mortes a exposição ambiental trabalham, por definição, com modelagem estatística. Não há declaração de óbito que diga "calor" na linha de causa. O que existe é excesso de mortalidade em períodos de temperatura elevada, comparado a uma linha de base esperada. Esse método, consolidado na epidemiologia desde os trabalhos sobre ondas de calor europeias dos anos 2000, é robusto — mas pressupõe que o leitor entenda que "associada" não é sinônimo de "causada exclusivamente por". O calor é gatilho, acelerador, fator determinante em sistemas fisiológicos já fragilizados.
E é exatamente aí que o dado brasileiro ganha sua dimensão mais perturbadora. O Brasil não é França em agosto de 2003, quando uma onda de calor matou cerca de 15 mil pessoas em dias contados — evento agudo, visível, que gerou comoção e reformas. O Brasil mata aos poucos, de forma difusa, silenciosa, distribuída em corpos que já carregam hipertensão mal controlada, insuficiência renal crônica, diabetes, e que vivem em periferias sem arborização, sem saneamento adequado, sem acesso a ambientes climatizados durante jornadas de trabalho ao ar livre.
O calor extremo não é um inimigo democrático. Ele encontra, com precisão quase cirúrgica, quem já estava em desvantagem.
Idosos perdem eficiência na termorregulação. Crianças pequenas dependem inteiramente do cuidado adulto para se proteger. Trabalhadores rurais e de construção civil não têm a opção de ficar em casa. Essa sobreposição de vulnerabilidades — biológica, social, econômica — é o verdadeiro objeto de estudo quando se fala em mortalidade por calor no Brasil. Os 120 mil não são uma estatística abstrata; são o resultado de décadas de escolhas urbanas, sanitárias e climáticas.
O estudo chega em momento em que o país enfrenta projeções cada vez mais severas de aumento de temperatura e frequência de eventos extremos. A ciência climática e a epidemiologia convergem aqui de maneira que deveria orientar política pública com urgência: sistemas de alerta precoce para populações vulneráveis, protocolos específicos nos serviços de atenção primária, revisão de normas de segurança do trabalho em ambientes externos, e planejamento urbano que trate arborização e sombreamento como infraestrutura de saúde — não como paisagismo.
Vinte anos de dados são, ao mesmo tempo, um arquivo de perdas e um manual de prevenção. A pergunta que o estudo da Fiocruz e da UFBA coloca, sem precisar dizê-la, é simples: o que faremos com o próximo período de vinte anos?
Camila Torres é médica e epidemiologista, chefe de Saúde da Xaplin.
Dra. Camila Torres — Saúde — chefia. Xaplin.
Leia o factual: Estudo liga 120 mil mortes no Brasil a ondas de calor em 20 anos
Fontes: Folha de S.Paulo · UOL
Este conteúdo não substitui orientação médica individual. Em caso de dúvida, procure um serviço de saúde.