O disco mais importante que você nunca ouviu
ARQUEOLOGIA MUSICAL por Caio Galvão Em 1969, a Tropicália estava no auge e à beira do abismo ao mesmo tempo.
ARQUEOLOGIA MUSICAL
por Caio Galvão
Em 1969, a Tropicália estava no auge e à beira do abismo ao mesmo tempo. Caetano e Gil tinham sido presos, exilados. Os Mutantes rachavam por dentro. Tom Zé era genial demais para o mercado. E um disco gravado em segredo quase mudou tudo.
Eu encontrei uma cópia — a única que conheço — num sebo em Botafogo, em 1987. Estava no meio de uma pilha de compactos de Roberto Carlos e LPs de música sertaneja. Capa branca, sem título, sem nome de artista. Só um carimbo roxo com a palavra "PROIBIDO".
O disco não tem créditos. Não tem ficha técnica. Mas quem conhece o som reconhece: as guitarras têm o timbre dos Mutantes. A voz principal — que aparece em três das oito faixas — tem a cadência de quem cresceu ouvindo João Gilberto. E as letras são de uma agressividade política que faria Chico Science parecer moderado.
A teoria mais aceita entre os colecionadores (e somos poucos, obsessivos e pouco confiáveis) é que o disco foi gravado em novembro de 1969, semanas antes do AI-5 endurecer de vez. Teria sido prensado em tiragem mínima — talvez 200 cópias — e confiscado antes de chegar às lojas.
Por que importa
Porque mostra um caminho que a música brasileira poderia ter seguido e não seguiu. Um caminho mais radical, mais punk avant la lettre, mais confrontador. Se esse disco tivesse circulado, a Tropicália talvez não tivesse se diluído no pop dos anos 70. Talvez o rock brasileiro dos 80 tivesse nascido uma década antes.
Ou talvez não. A história não permite experimentos contrafactuais. Mas o disco existe. Eu o tenho. E ele soa tão urgente hoje quanto deve ter soado em 1969.
Arqueologia musical não é nostalgia. É escavar o que foi enterrado — às vezes pela censura, às vezes pelo mercado, às vezes pelo simples acaso — e trazer de volta à superfície.
Caio Galvão é pesquisador, colecionador e colunista de Lado B. na Xaplin.