Braskem e a conta que sempre chega
Análise · Ricardo Mendes Dez bilhões de dólares. O número, por si, já bastaria para dimensionar a reestruturação de dívida que a Braskem agora…
Análise · Ricardo Mendes
Dez bilhões de dólares. O número, por si, já bastaria para dimensionar a reestruturação de dívida que a Braskem agora negocia. Contudo, ele é a consequência, não a causa. A petroquímica enfrenta uma confluência rara de crises: um ciclo de baixa prolongado em seu setor, que deprime os preços de seus produtos, somado a um passivo ambiental de escala ainda incerta em Alagoas.
O calendário aperta. Até 24 de agosto, a companhia opera sob o manto de uma medida cautelar que a protege de seus credores. Depois disso, o risco de ações judiciais torna-se concreto. A solução aventada, uma recuperação extrajudicial, é um mecanismo mais ágil que a via judicial tradicional. Traduzindo do jargão jurídico: é uma tentativa de acordo pré-aprovado com uma parcela relevante dos credores, que depois é levado à Justiça apenas para homologação, evitando o desgaste e a demora de um processo litigioso completo.
O insucesso da primeira proposta aos credores — uma carência de cinco anos para o principal e dois anos e meio para os juros — indica a distância entre as partes. A contraproposta da empresa, um "stay period" de 90 dias, é uma busca por tempo. Tempo para que os novos controladores, a gestora IG4 Capital, e sua sócia, a Petrobras, consigam alinhar um plano que pare de pé. As fontes que acompanham o caso projetam de três a cinco anos para que os desafios herdados da gestão anterior, do grupo Novonor, sejam endereçados.
A situação da Braskem não é um evento isolado de má gestão ou de um acidente. É um retrato da complexidade do capital industrial no século XXI. A dívida não vem apenas de balanços financeiros, mas de passivos ambientais e de ciclos econômicos globais. A exploração de sal-gema em Maceió enfraqueceu o caixa da companhia de uma forma que um ciclo de baixa de preços, por si só, talvez não fizesse. A fatura do desastre em Alagoas não é apenas financeira; ela é reputacional e, agora, existencial.
Enquanto as negociações correm no Brasil, um espelho se forma no México, onde uma dívida de US$ 2 bilhões da subsidiária local também busca reestruturação, possivelmente via Chapter 11, o equivalente americano da recuperação judicial. A internacionalização, que um dia foi sinal de robustez, hoje significa uma crise em múltiplas jurisdições.
O que restará da Braskem após essa renegociação forçada? E, mais importante, que lição fica para um modelo de negócio que precisa precificar o risco de colapsar não apenas mercados, mas o próprio chão?
Ricardo Mendes — Economia — chefia. Xaplin.
Leia o factual: Braskem avalia recuperação extrajudicial para dívidas de US$ 10 bi
Fontes: g1 · Folha de S.Paulo