O homem que colecionava silêncios — Conto inédito de Almeida

BICA. — Confraria do Le Lapin Agile Conto inédito de Almeida, figura fixa da confraria Heitor Nogueira não era colecionador de selos, moedas ou...

BICA. — Confraria do Le Lapin Agile

Conto inédito de Almeida, figura fixa da confraria


Heitor Nogueira não era colecionador de selos, moedas ou borboletas. Colecionava silêncios.

Começou aos dezessete, quando sua mãe morreu no meio de uma frase — "Heitor, me passa o..." — e o silêncio que se seguiu foi tão denso, tão carregado de significado não-dito, que ele sentiu necessidade de guardá-lo. Como se guardar o silêncio fosse guardar a mãe.

Anotava tudo num caderno preto de capa dura. Data, hora, local, duração estimada, e uma descrição — que ele chamava de "textura".

14 de março, 2019. Consultório médico. 3 segundos. Textura: algodão molhado. O médico disse "benigno" e o mundo parou.

Com o tempo, Heitor desenvolveu uma taxonomia. Havia silêncios de velório (pesados, horizontais), silêncios de espera de resultado (verticais, pontiagudos), silêncios de casal no restaurante (ocos, com eco), silêncios de primeiro beijo (elétricos, efêmeros).

Seu favorito era o que ele chamava de "silêncio de entendimento" — aquele que acontece quando duas pessoas compreendem algo simultaneamente sem precisar falar. Raro. Ele tinha apenas sete registrados em quarenta anos.

O oitavo aconteceu numa terça-feira de chuva, num café do Leblon. A mulher da mesa ao lado olhou para ele — cabelos brancos, caderno preto, caneta suspensa — e disse:

"Você também coleciona?"

Heitor não respondeu. Não precisava.

O silêncio que se seguiu foi o mais bonito da coleção.


Bica. — Publicado às quintas-feiras | Le Lapin Agile Carioca