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Relatório da ONU revela existência de torres de água fantasmas

Relatórios da ONU utilizam uma linguagem que esteriliza o drama, mas números mostram um problema invisível em países como o Afeganistão.

Relatório da ONU revela existência de torres de água fantasmas
Capa tipográfica · Xaplin

Análise · Clara Verdi

A burocracia das Nações Unidas produz relatórios em uma linguagem que esteriliza o drama, mas os números, quando postos em fila, contam uma história de sede. Na Ásia Central, as geleiras que os geógrafos um dia chamaram de “torres de água” encolheram em um terço em meio século. Nas pequenas nações insulares, mais de 70% da população já convive com a escassez hídrica. Duas geografias sem nada em comum — a estepe infinita de um lado, a ilha cercada de oceano por outro — irmanadas por uma mesma sentença.

O palco da conferência que divulgou os dados, a COP17 em Ulaanbaatar, é ele mesmo um comentário sobre a matéria. A Mongólia, terra de uma vastidão que sempre pareceu invulnerável, assiste à desertificação com a impotência de quem vê o mar avançar sobre a areia. A imagem que nos ensinaram, dos oásis férteis e das estepes do Cazaquistão ou do Uzbequistão, pertence a um tempo que está terminando. A degradação já atinge mais de um quarto do solo da região e empurra 24 milhões de pessoas para uma precariedade que não estava nos mapas do século XX.

O cálculo da indiferença

O que conecta a Ásia Central aos 39 países e 18 territórios que formam os SIDS — sigla asséptica para Small Island Developing States — é a condição de periferia. São lugares que sentem o aquecimento do planeta com uma violência dupla à média global, mas que participam do financiamento climático com migalhas. O relatório estima que as ilhas precisariam de quase seis vezes os 2 bilhões de dólares que recebem anualmente para se adaptar. É uma matemática simples, que mede a distância entre a retórica dos fóruns internacionais e a realidade de quem perde a terra, a água, a comida.

Não há como saber se os relatórios técnicos que se acumulam nas mesas de diplomatas em Genebra ou Nova York conseguirão furar a carapaça do hábito. O diagnóstico, afinal, não é novo. O que muda é a velocidade com que a catástrofe deixa de ser uma projeção para se tornar a paisagem cotidiana. A degradação do solo não é um conceito abstrato; é a perda de até seis bilhões de dólares por ano em uma região já frágil, é a fome que atinge 16 milhões nas ilhas.

Como se representa o som de uma geleira que recua? Como se filma a terra que não produz mais? Talvez a grande fratura do nosso tempo esteja aqui: entre o excesso de dados sobre o desastre e a nossa incapacidade de imaginar o seu verdadeiro tamanho.

Clara Verdi — Europa. Xaplin.

Leia o factual: Degelo e seca afetam mais de 50 países na Ásia Central

Fonte: Agência Brasil