O que a MTV nos ensinou sobre jornalismo musical — e o que esquecemos
CRITICA por Arnaldo Duval A MTV Brasil entre 1990 e 2005 nao era um canal de televisao. Era uma universidade de musica disfarçada de entretenimento.
CRITICA
por Arnaldo Duval
A MTV Brasil entre 1990 e 2005 nao era um canal de televisao. Era uma universidade de musica disfarçada de entretenimento.
Pense no que acontecia: um adolescente de Manaus ligava a TV e, entre um clipe de Nirvana e outro de Planet Hemp, aparecia um VJ explicando quem era John Coltrane. Ou um especial sobre tropicalia. Ou uma entrevista de 40 minutos com Tom Ze onde ele explicava musica atonal usando um liquidificador.
A MTV Brasil formou uma geracao inteira de ouvintes exigentes. Nao porque fosse pedagogica — era o contrario, era barulhenta, caotica, irreverente. Mas por tras da bagunça havia uma coisa rara: editores que amavam musica. Gente que escolhia clipes nao por audiencia, mas por qualidade. Gente que colocava Racionais MC's ao lado de Radiohead nao por quota, mas porque ambos eram geniais.
O que morreu com ela
Quando a MTV parou de ser sobre musica, o Brasil perdeu o unico espaco de curadoria musical de massa que existia. O Spotify preencheu o vazio da distribuicao — mas nao o da curadoria editorial. Playlist algoritmica nao e curadoria. E estatistica.
Curadoria e quando alguem que sabe mais que voce — e que ama o que faz — te pega pela mao e diz: "escuta isso". E aceita o risco de que voce nao goste. A MTV fazia isso. O Spotify nao faz. O Spotify te dá o que voce ja quer. A MTV te dava o que voce ainda nao sabia que queria.
E a Xaplin?
Lado B. nao e a MTV. Nao temos video, nao temos VJs, nao temos audiencia de milhoes. Temos algo que a MTV tinha e que ninguem mais tem: gente que ama musica escrevendo sobre musica para gente que ama musica. Isso nao e pouco. Na verdade, em 2026, e quase tudo.
Arnaldo Duval — Critica, Lado B. na Xaplin