Ancelotti: A tragédia familiar que abalou o técnico
Afastado do campo, o técnico Carlo Ancelotti viveu um drama familiar em Lille, testemunhando um velório em vez de ver o filho.
Análise · Marcos Tibúrcio
Carlo Ancelotti não foi a Lille ver o filho. Estava ali para testemunhar um velório. O do Paris Saint-Germain, o time bilionário que, aos 39 do segundo tempo, perdia por dois a zero para um adversário arrumado, de camisa suada e alma no lugar. Na tribuna, o italiano, novo homem do leme da Seleção Brasileira, deve ter rabiscado suas notas, talvez com aquela sobrancelha arqueada que virou sua marca registrada. Do lado de dentro do campo, um brasileiro via o mesmo roteiro se desenrolar.
Marquinhos, zagueiro, capitão, um homem que viu o PSG ser mil coisas diferentes na última década. E o que era agora? Era um time de 67% de posse de bola e uma única finalização certa no primeiro tempo. Uma equipe com Kvaratskhelia, Hakimi, nomes que ecoam como trovão, mas que jogava uma música de câmara enquanto o Lille, de Davide Ancelotti, filho de Carlo, fazia o simples. Fazia o futebol.
O futebol não se explica em planilhas de posse. Explica-se no pé direito de Haraldsson, que encontrou o ângulo aos 21 minutos. Explica-se no chute de Bakwa, que desenhou uma curva no ar e fez o 2 a 0 já no fim, quando os parisienses na arquibancada visitante deviam calcular a distância até o metrô mais próximo. Tudo parecia resolvido. A história, no entanto, nem sempre se conforma com o roteiro que lhe dão.
Então, nos acréscimos, o imponderável. Vitinha, um português, solta um torpedo de perna esquerda. Um gol. Apenas um gol, diriam os céticos, a maquiagem da derrota. Mas algo muda. O ar fica mais denso. O que era um velório vira uma vigília tensa. O mesmo Vitinha, minutos depois, cruza na bacia das almas. E ali, no meio de todos os homens, sobe Marquinhos. A cabeça do zagueiro encontra a bola, a bola encontra a rede. Um empate arrancado da garganta do tempo.
O técnico da Seleção, na tribuna, certamente viu mais do que o gol. Viu o zagueiro que não desiste de uma jogada perdida, o capitão que joga o corpo no tumulto da área para salvar o ponto. O homem que, mesmo em meio à letargia de uma equipe que ainda não venceu, se recusa a aceitar o epitáfio. A observação, claro, é uma interpretação do que se via à distância; apenas Ancelotti sabe o que, de fato, anotou em seu caderno. E é este o ponto.
O futebol de verdade, aquele que nos prende à beira do sofá, não é o que os treinadores desenham na prancheta antes do apito inicial. É o que os jogadores, desesperados, redesenham nos últimos minutos. Ancelotti foi à França ver jogadores. O que será que ele anotou ao lado do nome de Marquinhos?
Marcos Tibúrcio — Esporte — chefia. Xaplin.
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Fonte: ge