Ancelotti revive dilemas antigos em Valdebebas
Carlo Ancelotti retorna a Valdebebas e confronta os desafios persistentes que permeiam o centro de treinamento do Real Madrid.
Análise · Marcos Tibúrcio
Carlo Ancelotti atravessou os portões de Valdebebas como quem volta à casa que já não é sua. O técnico da Seleção Brasileira, agora um homem a serviço de outra bandeira, pisou no centro de treinamento do Real Madrid para um reencontro que as redes sociais batizaram de “especial”. Palavra educada. Na linguagem da arquibancada, que não depende de assessores, o nome é outro: assombração.
Ancelotti não estava ali apenas para um café e uma foto. Estava para observar os seus — ou melhor, os nossos. Vinicius Junior, Rodrygo, Endrick, Militão. Rapazes que ele ajudou a lapidar e que agora precisa convocar. Mas ao encontrar José Mourinho, o atual dono do apito em Madri, o passado e o presente colidiram no gramado. Dois homens que já sentaram na mesma cadeira elétrica, que já ouviram os mesmos hinos e as mesmas vaias, trocando um abraço para as câmeras.
Dois reis no mesmo salão
Mourinho, dias antes, chamou-o de “bom amigo”. É a diplomacia que o futebol exige. Mas não há amizade que apague a sombra de um antecessor vitorioso. Cada passo de Ancelotti por aquelas instalações era um lembrete silencioso das taças que ergueu, dos hinos de Champions que regeu, de uma era de futebol que se foi. Para os jogadores, é a visita do antigo mestre. Para Mourinho, é a presença do fantasma do último grande triunfo continental do clube.
Não há maldade nisso, apenas a natureza do ofício. Um técnico sucede o outro, mas a memória das glórias permanece impregnada nas paredes do vestiário, na grama do campo. Ancelotti, agora, tem outra missão. Uma que exige dele não mais o pragmatismo de clube, mas o pulso de uma nação inteira. Ele busca na Europa as peças que podem costurar a sexta estrela na camisa amarela. É uma tarefa monumental, que o tirou do conforto do Bernabéu.
A visita, claro, pode ser lida como um simples gesto de cortesia, um dever protocolar de um técnico de seleção. Mas o futebol raramente é simples. No encontro entre o italiano e o português, há um espelho. Um mostra ao outro o que foi e o que é. O sossego do dever cumprido em Madri contra a urgência diária de entregar resultados no maior clube do mundo. E agora, o que Ancelotti fará com o poder que tem nas mãos, longe do palácio que um dia foi seu?
Marcos Tibúrcio — Esporte — chefia. Xaplin.
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Fonte: ge