Ancelotti usa palavras fortes para criticar futebol brasileiro
Carlo Ancelotti não poupa críticas ao futebol brasileiro, gerando debate sobre a percepção externa do esporte nacional.
Análise · Marcos Tibúrcio
Lá fora, onde o futebol tem sotaque e se analisa o Brasil com a distância segura do Atlântico, a palavra escolhida foi “revolução”. O jornal espanhol, o português — todos viram no papel com os 23 nomes de Carlo Ancelotti a certidão de um novo tempo. Dezesseis homens que vestiram a camisa no Mundial de 2026 não a vestirão agora. Oito rapazes verão a amarelinha pela primeira vez fora do sonho. Revolução. É uma palavra forte. Grandiosa. Talvez grande demais para quem ainda varre os cacos de uma Copa do Mundo que o próprio técnico definiu como decepção.
O que a Europa chama de revolução, na arquibancada brasileira ainda tem outro nome: necessidade. Ou, para os mais calejados, recomeço. É o que se faz sobre ruínas. Não se ergue um novo prédio por capricho arquitetônico, mas porque o antigo ruiu. Ancelotti não é um ideólogo de maio de 68 rasgando retratos na parede. É um engenheiro experiente diante de uma estrutura que cedeu. Sua lista não é um manifesto; é um cálculo de materiais. Trocam-se as vigas gastas — saem os veteranos do Catar e da América do Norte — e testa-se a resistência das novas. Entram Estêvão, Rayan, Samuel Lino, garotos cuja história na Seleção ainda é uma folha em branco.
A imprensa espanhola, que conhece o italiano das tardes de domingo no Bernabéu, enxerga o início da “verdadeira era Carletto”. Aponta para Vini Jr. e Raphinha como os novos donos da casa. É uma leitura lógica, mas que talvez ignore o peso do que significa ser o protagonista de uma Seleção que já não impõe medo pelo simples peso da camisa. O protagonismo, aqui, nasce menos da escolha do técnico e mais da ausência de outros ombros para carregar o piano.
É claro que uma renovação de 16 nomes em um único ciclo tem a aparência de um ato radical. E é possível que daqui a quatro anos, em 2030, olhemos para esta convocação de amistosos contra Austrália e Índia como a pedra fundamental de algo grandioso. Mas o futebol, este drama jogado em campo de grama, recusa roteiros escritos com tanta antecedência. Hoje, a lista de Ancelotti é apenas uma aposta. Um gesto de quem sabe que o caminho usado até aqui levou ao lugar de sempre.
A revolução, se vier, não estará no papel timbrado da CBF nem nas manchetes de Madri. Estará na bola. No drible de um ponta que desobedece a ordem tática, na frieza de um centroavante diante do goleiro, no grito que nasce uníssono de um povo que volta a se reconhecer em onze homens. Até lá, como se dizia nas gerais do velho Maracanã, é só mais uma escalação. E toda escalação, por mais nova que pareça, carrega a poeira da última derrota.
Marcos Tibúrcio — Esporte — chefia. Xaplin.
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Fonte: ge