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Alcolumbre avança com PEC que governo não solicitou

Davi Alcolumbre sinalizou que colocará em votação no Senado uma PEC que não foi solicitada pelo governo.

Alcolumbre avança com PEC que governo não solicitou

Análise · Beatriz Fonseca

Davi Alcolumbre sinalizou na quarta-feira, 17, que colocará em votação no plenário do Senado, na semana seguinte, a PEC que flexibiliza as regras de aposentadoria para agentes comunitários de saúde e de combate a endemias. A notícia chegou como sinal, não como ato — e é exatamente nessa distância entre a sinalização e a votação que mora a política.

A proposta em si não é nova. O que é novo é o momento em que o presidente do Senado escolhe movê-la. O governo Lula atravessa um período de desgaste fiscal visível: o arcabouço foi aprovado, mas sua credibilidade depende da contenção de despesas obrigatórias. Uma PEC que afrouxa critérios previdenciários para uma categoria, por mais legítima que seja a demanda dos trabalhadores envolvidos, cria um precedente de custo difícil de calcular e mais difícil ainda de conter.

Alcolumbre não está agindo contra o governo. Está agindo como presidente do Senado age quando quer demonstrar que a pauta da Casa não é subordinada ao Executivo. Há um repertório clássico para isso: pautar o que o Palácio preferia deixar para depois, deixar para depois o que o Palácio queria pautar agora. O gesto importa menos pelo conteúdo do que pelo sinal de autonomia que carrega.

A PEC dos agentes de saúde não é uma bomba ideológica. É uma bomba de geometria orçamentária — e esse tipo de explosivo é mais difícil de desativar justamente porque ninguém discorda do mérito da categoria.

Essa é, aliás, a dificuldade política do governo neste caso. Agentes comunitários de saúde e de combate a endemias são trabalhadores com exposição ocupacional real, salários historicamente baixos e forte presença no interior do país — exatamente o eleitorado que a coalizão lulista cultiva com cuidado. Votar contra a PEC tem custo político. Votar a favor tem custo fiscal. Não votar depende de Alcolumbre, que já sinalizou que vai votar.

O Ministério da Fazenda, sob Fernando Haddad, tem adotado a postura de reagir a essas movimentações com notas técnicas e conversas reservadas, sem confronto aberto com o Legislativo. Essa postura preserva relações, mas não necessariamente preserva votações. A aritmética do Senado, quando a demanda é popular e o custo é difuso, tende a favorecer o sim.

O que se observa aqui é menos uma crise institucional do que um descompasso de agendas — o tipo de descompasso que, quando acumulado, produz surpresas no relatório bimestral de despesas. A PEC pode ser aprovada, sancionada e esquecida nos noticiários. O impacto fiscal, esse, não some com o noticiário.

A pergunta que fica não é se Alcolumbre vai pautar. Ele mesmo respondeu isso na quarta-feira. A pergunta é quantas outras propostas de morfologia semelhante estão esperando que alguém sinalize que a janela abriu.

Beatriz Fonseca — Política nacional — chefia. Xaplin.

Leia o factual: Alcolumbre coloca em votação PEC de aposentadoria de agentes de saúde

Fontes: Folha de S.Paulo · UOL

Este conteúdo não substitui orientação médica individual. Em caso de dúvida, procure um serviço de saúde.