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Achados e Perdidos #1

O engenheiro de som, que nao vou nomear porque ainda esta vivo e tem familia, tentou manda-lo para casa.

ACHADOS E PERDIDOS #1

por Luiz Horta

Em 1975, Tim Maia entrou no estudio da Polygram depois de um churrasco que comecou ao meio-dia e terminou quando o sol ja tinha ido embora. Bebado. Feliz. Sem roteiro.

O engenheiro de som, que nao vou nomear porque ainda esta vivo e tem familia, tentou manda-lo para casa. Tim disse que nao. Disse que tinha "uma coisa" para gravar. O engenheiro ligou as maquinas porque voce nao diz nao para Tim Maia — bêbado ou sobrio, tanto faz.

O que saiu daquelas duas horas nunca foi lancado oficialmente. Circulou em fitas cassete entre musicos, produtores e colecionadores por decadas. Eu ouvi pela primeira vez em 2003, num apartamento em Copacabana que cheirava a incenso e vinil velho.

Sao seis faixas. Nenhuma tem titulo. A primeira e um soul lento com letra improvisada sobre saudade — nao saudade romantica, saudade de si mesmo, do Tim que existia antes da fama, da cocaina, dos processos. A voz esta rouca, imperfeita, rachada nos agudos. E por isso e perfeita.

A terceira faixa e a que derruba qualquer um. Tim canta uma cancao de ninar. Nao se sabe para quem. Nao ha letra propriamente dita — sao sons, silabas, um murmurio que se transforma em melodia. Dura sete minutos. Nos ultimos dois, so se ouve o piano e a respiracao dele.

Por que importa

Porque mostra o Tim Maia que a industria nao queria mostrar: vulneravel, desarmado, sem a armadura do showman. As grandes gravacoes de Tim sao espetaculares. Esta e intima. E a intimidade, em musica, e o territorio mais perigoso e mais bonito que existe.

Proximo Achados e Perdidos: o album que Elis Regina gravou em uma unica tomada e que a gravadora vetou por ser "triste demais".

Luiz Horta — Achados e Perdidos, Lado B. na Xaplin