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Iranianos debatem futuro político após morte de Raisi

A morte do presidente Raisi levanta incertezas sobre a sucessão e o futuro do poder no Irã. Analisamos os cenários.

Iranianos debatem futuro político após morte de Raisi
Capa tipográfica · Xaplin

Análise · Clara Verdi

Há seis meses o Irã é governado por um fantasma. Mojtaba Khamenei, ferido no mesmo ataque americano-israelense que matou seu pai e o alçou ao posto de Líder Supremo, não é visto desde então. Sua liderança, até agora, se exerce por procuração, por textos lidos por outros, por mensagens publicadas em canais digitais. Sua última missiva, divulgada neste domingo, é um chamado à unidade do mundo muçulmano contra o “verdadeiro inimigo” — os Estados Unidos, Israel —, mas sua força não está no que diz, e sim em quem ouve e, sobretudo, em quem não vê.

A mensagem apela aos vizinhos, às monarquias do Golfo que desde 1979 olham para a ideologia revolucionária de Teerã como uma ameaça existencial. Ele questiona se os palestinos estariam “tão desamparados” com uma umma unida. A pergunta é retórica, mas a ironia é cortante. É o líder de um Irã que exportou sua revolução e estendeu sua influência precisamente explorando as fraturas do mundo árabe que agora evoca uma unidade perdida. É um apelo que nasce da mais absoluta fraqueza, não da força.

Um líder que precisa proibir “qualquer ato que prejudique a coesão social” dentro de seu próprio país, como fez na sexta-feira, não fala de uma posição de comando inabalável. Ele governa um Irã sitiado por um bloqueio naval americano, sob décadas de sanções e em guerra aberta. O chamado para fora é um eco do apelo para dentro: a súplica por unidade é o sintoma da fragmentação. O que se projeta para os vizinhos é o que falta em casa.

Fontes do seu círculo, citadas pela Reuters, descrevem um homem desfigurado, com o rosto e as pernas atingidos. A ausência de imagens alimenta o mito ou a dúvida. A voz que se cala, substituída pelo texto, transforma o poder em algo abstrato, espectral. O poder no Irã sempre foi um amálgama de autoridade religiosa e força militar, mas seu ápice repousava numa figura visível, a quem se prestava lealdade. O que resta quando essa figura se torna apenas um nome em um comunicado? A leitura de que o poder iraniano se mantém intacto apesar da ausência de seu líder talvez seja a mais cômoda — e a menos provável.

A política, ensina a história, abomina o vácuo. E a imagem de um trono ocupado por um líder invisível e ferido convida à especulação, à intriga, ao realinhamento de forças. Quem, de fato, governa em Teerã? E por quanto tempo uma nação em guerra pode ser liderada por uma voz sem rosto?

Clara Verdi — Europa. Xaplin.

Leia o factual: Líder supremo do Irã pede união muçulmana contra EUA e Israel

Fontes: Folha de S.Paulo · CNN Brasil