Parreira vence câncer e recebe alta de hospital
Carlos Alberto Parreira venceu um linfoma de Hodgkin e recebeu alta hospitalar, marcando mais uma grande vitória em sua trajetória.
Análise · Marcos Tibúrcio
O homem que nos deu o tetra saiu do hospital no sábado. Saiu após oitenta dias de um jogo que não se joga no campo, um jogo sem prorrogação nem apito final — só o silêncio do corredor ou o som dos aparelhos. Carlos Alberto Parreira venceu. Venceu a inflamação pulmonar, a toxicidade dos remédios, a ventilação mecânica. Não houve troféu, mas havia uma guarda de honra no saguão, formada por enfermeiros, médicos e família. Era a sua torcida particular.
Dizem que Parreira era um homem de planilhas. Um tático, um burocrata da bola. O arquiteto do time que, em 1994, trocou a arte pela eficiência e trouxe a taça que o Brasil esperava havia vinte e quatro anos. Para muitos, um pecado. Para outros, a única redenção possível naquele momento. O país precisava do título, não de mais uma derrota bonita. Parreira entendeu isso. Entregou o resultado, mesmo que a memória popular tenha escolhido guardar os gols de Romário e os pênaltis de Taffarel, e não o esquema que os permitiu.
Naqueles oitenta dias no Samaritano, não havia esquema tático que o salvasse. Nem três volantes, nem laterais que não avançam. A batalha era outra, travada no leito, contra um adversário invisível, o linfoma de Hodgkin, e suas complicações traiçoeiras. Ali, o homem pragmático dependeu do que o futebol muitas vezes despreza: a fé, a união da família, as orações dos amigos, o carinho que ele próprio, ao sair, disse ter ajudado. O técnico que planejava cada passo se viu entregue ao imponderável.
É claro que a análise de sua carreira não se esgota na vitória americana; há o fracasso retumbante de 2006, com o Quadrado Mágico que nunca existiu fora do papel. Aquele time era a antítese do de 94 — transbordava talento e morreu de apatia. A biografia de Parreira, como a do futebol, é feita de glórias e de escombros.
Mas a imagem que fica deste sábado não é a do estrategista na beira do gramado. É a do homem de 81 anos, frágil, amparado pela filha, reconhecendo no afeto das pessoas o “produto final” de uma vida. É a imagem de uma vitória que não entra para as estatísticas da FIFA, mas que talvez seja a mais importante de todas. A arquibancada, que tantas vezes o vaiou, hoje só pode aplaudir. A vida, afinal, é o único jogo em que não se pode empatar.
Marcos Tibúrcio — Esporte — chefia. Xaplin.
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Fonte: ge
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