Coreia do Norte mantém sequestrados japoneses sem retorno
Pyongyang continua a deter cidadãos japoneses sequestrados, causando décadas de sofrimento e impasses diplomáticos.
Análise · Rafael Tokyo
Uma tarde quente em agosto, uma caminhada de volta do supermercado. Na ilha de Sado, o mar é uma presença constante. Para Hitomi Soga, então com 19 anos, o som das ondas foi a última memória do Japão por mais de duas décadas. A vida dela não foi interrompida; foi confiscada. O Estado norte-coreano a tomou para si, junto com sua mãe, em 1978.
O relato de Soga ilumina um dos programas mais calculados e cruéis da Guerra Fria na Ásia. O sequestro de cidadãos japoneses, ao menos 17 identificados por Tóquio, não era um ato de banditismo comum. Era política de Estado. A teoria mais aceita é que os sequestrados se tornariam “livros didáticos vivos”, forçados a ensinar língua e costumes para que espiões pudessem se infiltrar no Japão. Uma pessoa não como pessoa, mas como ferramenta. Como um dicionário que respira.
A crueldade se desdobra nos detalhes. Primeiro, o quartel militar por dois anos, o silêncio sobre o paradeiro da mãe, a certeza de que qualquer pergunta seria inútil. Depois, a liberdade vigiada e uma nova ordem: casar-se com um desconhecido. Não um desconhecido qualquer, mas Charles Jenkins, sargento americano que desertara em 1965. O regime, em sua lógica perversa, unia à força uma japonesa e um americano. Juntar os símbolos de seus dois maiores adversários sob seu controle era um ato de propaganda. Uma pequena vitória teatral encenada com vidas reais.
Eu saía do quartel, olhava para o céu, via a lua e as estrelas e chorava pensando na minha família no Japão.
A história de Soga não é sobre a resiliência de uma vítima, embora ela tenha sido resiliente. É sobre a arquitetura de um poder que se apropria do banal — a identidade, o idioma, o casamento — para seus próprios fins. O indivíduo é apagado, transformado em peça num tabuleiro geopolítico. Ele serve para ensinar, para casar, para provar um ponto. O sequestro não era o fim, era o início de uma longa e metódica desumanização.
Ainda hoje, o relato de Soga carrega um não-saber fundamental. Ela não entende por que foi a escolhida, se o ato foi aleatório ou específico. Essa incerteza, talvez, seja a cicatriz mais profunda. Mostra que a lógica do sequestrador permanece impenetrável para a sequestrada, um abismo que a razão não consegue cruzar. O governo japonês pode contar os sequestrados, mas não pode explicar o porquê de cada um deles. O Estado norte-coreano, por sua vez, nunca ofereceu um inventário completo de suas ações, deixando as famílias em um limbo perpétuo.
A lua que Soga via de seu cativeiro era a mesma que brilhava sobre a ilha de Sado. Mas a distância entre elas não se media em quilômetros. Mede-se em tudo o que foi roubado entre aquela caminhada e o choro sob as estrelas. O que uma vida se torna quando seu roteiro é escrito por outros?
Rafael Tokyo — Ásia. Xaplin.
Leia o factual: Japonesa relata sequestro pela Coreia do Norte em 1978
Fontes: g1 · BBC News Brasil