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A viagem sem volta na BR-373

Análise · Luciano Aragão Eram 4h30 da madrugada quando a Secretaria de Saúde de Imbituva, no Paraná, se tornou viúva de um de seus micro-ônibus.

A viagem sem volta na BR-373
Capa tipográfica · Xaplin

Análise · Luciano Aragão

Eram 4h30 da madrugada quando a Secretaria de Saúde de Imbituva, no Paraná, se tornou viúva de um de seus micro-ônibus. O veículo, com placa do município, fazia o trajeto que milhares de outros, idênticos, fazem todo dia Brasil adentro: levar gente para tentar consertar a vida em um hospital maior. Levava doentes. Levava gente que precisa do Estado para o básico. A viagem terminou em uma colisão frontal com uma carreta de Erechim, no Rio Grande do Sul, na BR-373. O saldo, até agora, é de 21 mortos, incluindo o motorista do caminhão.

Não existe cena mais rotineira e silenciosa no interior do país do que a partida destes veículos. Antes do sol, pessoas que a estatística oficial chama de "usuários do sistema" embarcam com seus exames em uma pasta, uma garrafa de água e a esperança de um diagnóstico, um tratamento, uma cirurgia que sua cidade não oferece. É a materialização da capilaridade precária do Sistema Único de Saúde, um arranjo que move milhões de brasileiros por rodovias federais para garantir o que a Constituição promete a todos.

A concessionária que administra o trecho, Via Araucária, acionou o protocolo. Polícia Rodoviária Federal, bombeiros, ambulâncias do Samu. O asfalto se encheu de sirenes, cobertores térmicos e a burocracia eficiente da morte. Os quatro feridos foram para hospitais em Ponta Grossa, um polo regional. Cumpriram, tragicamente, o destino original de buscar atendimento longe de casa.

Em Brasília, um acidente como o de Imbituva não gera nota de pesar de ministro nem discursos no plenário. É um fato diverso, uma fatalidade local. Não há um culpado óbvio a quem atribuir a desgraça, um inimigo político a ser alvejado. Há apenas um micro-ônibus de uma prefeitura pobre, uma carreta, uma estrada e gente que precisava de um médico. É um problema estrutural. E problemas estruturais não rendem votos nem manchetes na capital.

O que se quebrou na BR-373 foi mais do que metal e vidas. Foi o elo final de uma corrente de dependência que começa na ausência de um especialista em um posto de saúde e termina, para 21 pessoas, no acostamento de uma rodovia federal.

Quantos micro-ônibus da Saúde estão, neste exato momento, rodando pelas estradas do país?

Luciano Aragão — Brasília. Xaplin.

Leia o factual: Acidente entre micro-ônibus e carreta mata 21 na BR-373

Fontes: g1 · UOL

Este conteúdo não substitui orientação médica individual. Em caso de dúvida, procure um serviço de saúde.