Samuel Ricardo voa para seleção angolana
Convocação de Samuel Ricardo para a seleção angolana de futebol mobiliza expectativas e paixão no Ceará.
Análise · Marcos Tibúrcio
Há duas viagens na convocação de Samuel Ricardo. A primeira é a que um avião fará, em setembro, entre Fortaleza e Luanda. Cruzará o Atlântico, levará um corpo de 26 anos para uma Copa do Mundo de MMA Amador. A outra, a que importa, não se mede em milhas. Começou há catorze anos, num projeto social em Fortaleza, e ainda não terminou.
O homem que embarca para Angola é um lutador. Parece óbvio, mas não é. Antes do octógono, antes do muay thai, do jiu-jitsu e do judô — artes que carrega na faixa, como um general as suas condecorações —, houve a luta mais antiga. A de um menino de doze anos que encontrou na disciplina do tatame um caminho. O esporte, para alguns, é vocação. Para outros, como Samuel, é a primeira gramática que ensina a ler o mundo e a se escrever nele.
Hoje, ele chega à seleção com três vitórias recentes, a última por nocaute. É um atleta em seu auge, um homem talhado para o combate. Mas o detalhe que revela o personagem não está no cartel, está no que ele faz quando tira as luvas. Samuel Ricardo, o lutador, volta para as comunidades de onde saiu e se torna o professor Samuel Ricardo. Devolve aos garotos de hoje a chance que um dia deram a ele. O ciclo. O soco que ensina a defender é o mesmo braço que acolhe.
Esta é a anatomia de um ídolo real, construído longe das luzes, no suor anônimo do ginásio. A viagem para Angola é, portanto, menos sobre um campeonato e mais sobre um testamento. Cada golpe que Samuel desferir em Luanda carregará a história do menino que começou aos doze, do mestre que ele se tornou e dos alunos que, de Fortaleza, assistirão a um deles no mundo. É claro que há técnica, há estratégia, há a frieza do combate. Mas a matéria-prima de um campeão, por vezes, é a memória.
O resultado que trará de Angola é, por enquanto, uma página em branco. Pode ser uma medalha, pode ser uma derrota. Pouco importa. A maior vitória de Samuel Ricardo não depende de um juiz. Ela já acontece, todos os dias, nos tatames de Fortaleza, onde um homem que aprendeu a lutar ensina outros a viver.
Marcos Tibúrcio — Esporte — chefia. Xaplin.
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Fonte: ge