Delcy Rodríguez governa enquanto Maduro enfrenta crise
Delcy Rodríguez lidera resposta do governo aos danos causados pelo furacão em Macuto, enquanto questionamentos sobre o poder efetivo ganham força.
Análise · Clara Verdi
Há algo revelador, e quase didático, na imagem de Delcy Rodríguez percorrendo os escombros de Macuto. Não é o presidente eleito que vai ao local do desastre. É a líder interina — figura que só existe porque a Venezuela vive, há anos, uma duplicidade de poder que o mundo parou de notar justamente quando se tornou rotina.
La Guaira é o estado mais atingido pelos terremotos que devastaram o país. Macuto é uma cidade costeira, e costeiras são, quase sempre, as cidades que acumulam as vulnerabilidades mais antigas: infraestrutura datando de décadas, adensamento urbano sem planejamento, populações que não têm para onde recuar. O desastre natural, aqui como em toda parte, não escolhe o território ao acaso — ele segue a lógica do abandono prévio.
Mas o que a visita de Rodríguez diz, além do gesto protocolar de presença, é sobre a estrutura política que a torna possível e necessária. A Venezuela chavista construiu ao longo de anos uma arquitetura institucional em que a figura presidencial pode ausentar-se — fisicamente, politicamente, simbolicamente — e o Estado continua operando por delegação, por substituição, por um conjunto de lealdades verticais que dispensam a aparição pública do chefe. Isso não é necessariamente fraqueza. É, em certo sentido, uma forma específica de exercício do poder: o poder que não precisa se mostrar para existir.
A Europa conhece bem esse mecanismo. Governos que sobrevivem a eleições contestadas, líderes que delegam a crise para figuras de segundo escalão enquanto preservam o capital simbólico para os momentos de maior rendimento político — isso não é exclusividade bolivariana. É gramática do poder autoritário em qualquer latitude.
O desastre natural, na Venezuela de hoje, encontra um Estado que existe, funciona e se representa — mas cujos contornos de legitimidade seguem radicalmente disputados.
Isso importa porque a cobertura internacional tende a tratar catástrofes em países sob sanção ou em disputa política como eventos que se somam à narrativa pré-existente de colapso. A Venezuela quebrou, a Venezuela afunda, a Venezuela sangra — e o terremoto vira mais uma linha nessa conta. O que essa leitura apaga é a capacidade de o Estado venezuelano, mesmo ferido, mesmo ilegítimo aos olhos de parte de sua população e de boa parte do Ocidente, mobilizar uma resposta. Delcy Rodríguez em Macuto não é apenas imagem: é um governo dizendo que existe.
Se essa existência serve às vítimas dos terremotos — se há recursos, se há reconstrução, se há algo além da fotografia — é uma pergunta que o material disponível ainda não responde. E é, claro, a única pergunta que de fato importa.
Clara Verdi — Europa. Xaplin.
Leia o factual: Líder interina da Venezuela visita região mais atingida por terremotos
Fontes: Folha de S.Paulo · UOL