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Desastre na Venezuela deixa 235 mortos e população em silêncio

Análise · Clara Verdi. Catástrofe na Venezuela marca nova tragédia humanitária e acirra crise no país.

Desastre na Venezuela deixa 235 mortos e população em silêncio

Análise · Clara Verdi

Duzentos e trinta e cinco mortos. O número — confirmado pelo Ministério da Saúde venezuelano na noite de quinta-feira, com o ministro Carlos Alvarado colocando nome e cargo no dado — tem o peso específico dos números que param de crescer apenas porque as equipes de resgate chegaram ao limite do alcançável. Ainda havia soterrados. Ainda havia prédios que não eram mais prédios.

Os dois terremotos que atingiram a Venezuela na quarta-feira à noite são, segundo o que circula nas apurações, os mais fortes a sacudir o país em mais de cem anos. Cem anos. A memória sísmica de um lugar é longa, impessoal, indiferente à conjuntura política de quem vive sobre ela. A terra não sabe que a Venezuela de 2025 é um Estado exaurido, com infraestrutura médica cronicamente sucateada, com populações inteiras que passaram anos migrando justamente para escapar de um colapso que agora ganhou dimensão literal.

É esse acúmulo que transforma um desastre natural em catástrofe social. Não são só os edifícios que desabam — são edifícios que já vinham desabando em câmera lenta, por negligência, por falta de manutenção, por um Estado que há anos não consegue ou não quer ser Estado para a maior parte do seu território. O terremoto não criou a vulnerabilidade. Ele a revelou com a brutalidade de quem não tem paciência para eufemismos.

O Itamaraty confirmou ao menos dois brasileiros entre os mortos. É o tipo de dado que humaniza o número para o leitor de fora, mas que também expõe algo mais amplo: a diáspora venezuelana e a presença brasileira no país vizinho compõem agora uma geografia do luto que não respeita fronteiras.

Da Europa, onde acompanho o noticiário com o distanciamento geográfico que às vezes clareia e às vezes distorce, o que chama atenção é o que não aparece. A Venezuela desapareceu das pautas europeias há alguns anos — substituída pela Ucrânia, pelo Mediterrâneo, pelos próprios terremotos na Turquia e no Marrocos, que mobilizaram uma solidariedade que tem muito de proximidade e pouco de princípio. Duzentos e trinta e cinco mortos numa região com décadas de cobertura intermitente, num país que o Ocidente alternadamente ignora e usa como exemplo didático de fracasso bolivariano, provavelmente não vão mover muito.

Há uma economia moral na cobertura de catástrofes. Alguns mortos custam mais atenção do que outros. Essa é uma verdade desconfortável que os jornalistas que trabalham fora dos centros de gravidade da mídia global aprendem cedo — aprendi no Rio, confirmei em Paris. O que se faz com essa consciência é, no fundo, a única questão ética que resta: registrar com a mesma seriedade o que o mercado de atenção subvalorizaria.

Duzentos e trinta e cinco mortos. Equipes de resgate sobre escombros. Dois brasileiros identificados. Um país sobre o qual o mundo já havia decidido não ter mais muito a dizer. A terra discordou.

*Clara Verdi — Correspondente Europa, Xaplin*

Clara Verdi — Europa. Xaplin.

Leia o factual: Número de mortos em terremotos na Venezuela

Fontes: g1 · Folha de S.Paulo · CNN Brasil · UOL

Este conteúdo não substitui orientação médica individual. Em caso de dúvida, procure um serviço de saúde.