A Venezuela conta seus mortos sem que o mundo conte
Análise · Clara Verdi Oito dias. É o tempo que levou para a Venezuela chegar ao número de 2.595 mortos confirmados após os terremotos gêmeos…
Análise · Clara Verdi
Oito dias. É o tempo que levou para a Venezuela chegar ao número de 2.595 mortos confirmados após os terremotos gêmeos que devastaram o país. É também o tempo que a maioria das redações do mundo precisou para perceber que havia ali uma catástrofe — e não apenas um evento climático periférico ocorrendo num Estado que a imprensa ocidental já havia decretado, há anos, como notícia encerrada.
A informação veio de Delcy Rodríguez, líder interina do regime. Este detalhe importa e merece ser retido: num país onde os mecanismos de verificação independente foram sistematicamente destruídos, onde jornalistas operam sob pressão constante e onde o Estado controla os fluxos de informação como se controlasse os fluxos de gasolina — com escassez seletiva e distribuição política —, o número de 2.595 é tanto um dado quanto uma declaração de poder. Pode ser subestimado. Pode ser exato. Não há como saber. E essa impossibilidade já é, em si, uma forma de violência institucional.
Mas foquemos no que os números permitem dizer. Dois mil e quinhentos e noventa e cinco mortos em oito dias de contagem é uma cifra que, ocorrendo em qualquer capital europeia, paralisaria ciclos de notícia por semanas, mobilizaria cúpulas de emergência e geraria cobertura ao vivo ininterrupta. Ocorrendo na Venezuela de Maduro — país sob sanções, país cuja cobertura já foi "resolvida" pela narrativa da ditadura — tende a circular como número sem rosto, dado sem território, tragédia sem testemunha.
O problema não é que a Venezuela seja governada por um regime autoritário. O problema é que o autoritarismo do regime se tornou a moldura que absorve tudo — inclusive o sofrimento das pessoas que vivem sob ele.
Há uma perversidade estrutural aqui que merece ser nomeada: as populações que vivem sob governos que a imprensa liberal condena tendem a ser duplamente punidas. Primeiro pelo regime. Depois pela invisibilidade que o julgamento do regime impõe a sua existência cotidiana. Os mortos venezuelanos de hoje não são notícia porque são vítimas de um terremoto. São uma nota porque são vítimas de um terremoto num país que já foi catalogado e arquivado.
A Venezuela está na América Latina, não na Europa — e é por isso que escrevo sobre isso daqui, desta margem que observa as margens. Cresci num país que aprendeu, na própria pele, o que significa ser tratado como problema a resolver e não como história a compreender. A lógica é a mesma: quando um lugar já foi explicado, suas tragédias viram confirmação da explicação, não convite à escuta.
Dois mil quinhentos e noventa e cinco mortos confirmados. O verbo "confirmados" pesa mais do que parece. Significa que há mortos ainda não confirmados. Significa que o chão continua cedendo — literalmente e em todos os outros sentidos possíveis.
Clara Verdi — Europa. Xaplin.
Leia o factual: Mortes em terremotos na Venezuela chegam a 2.595
Fontes: Folha de S.Paulo · CNN Brasil · UOL